Às vezes, no intuito de me proteger, procuro não ler. Não vi. Tampouco quero ouvir nem falar nada. As palavras vão sendo digeridas, incrustadas na carne cá dentro e me envenena. Meus olhos continuam vendo como sempre viram. Porém, os dados são processados de forma dolorida ao peito. Cada vez dói mais quando se constata que nada pode ser feito. Sou inútil diante daquilo que tanto me incomoda e aflige. Não adianta sacolejar os braços, pois não se trata de uma inofensiva mosca. É algo maior e muito mais poderoso: o ser-humano.
Já citei outras tantas vezes o meu desejo de viver isolada. Não, não quero que as pessoas se afastem de mim. Que continuem no meu campo de visão, esses seres escolhidos para pertencerem ao meu círculo. O quê, por vezes, gostaria é não ter contato com aqueles desconhecidos que me trazem desconforto em notá-los. Fazer algo como um dotô faz: casa-carro-garagem privativa-gabinete-garagem privativa-carro-casa. Uma bolha ambulante. Fecham-se os vidros. Liga-se o ar-condicionado. Coloca-se música para desviar a atenção dos olhos e ouvidos. Pensar nos cocktails. Na viagem ao exterior. No meu rabo.
Parei no sinal. Como sempre, eu, eu mesma e Maura no carro. Musiquinha incapaz de desviar-me de mim. Janelas abertas. O mesmo menino que outras tantas vezes eu já vi vendendo jujubas no semáforo. A imagem dele já havia me cutucado todos os outros momentos. Antes, ele vinha acompanhado por um outro, que deve ter mais ou menos a mesma idade, que não creio ser irmão dele. Diferem muito um do outro. Havia me fixado neles pois além do aspecto físico, algo incorpóreo captado. Alguma coisa que me fazia esquecer a minha espera pela luz verde... algo que pesava dentro do peito, causava desconforto, e era belo ao mesmo tempo. Talvez fosse a amizade explicitamente implícita entre os dois moleques. Não... talvez, sim, fosse a solidariedade entre ambos, na miséria, que me fez querer poder colocar tal sentimento nobre num contexto menos penoso. Hoje, ao revê-lo só, cabelinho penteado, decência mantida na medida do possível, carregando a caixa com os doces, sob um sol escaldante, contive-me para não chorar, deixando externar aquele peso que tal imagem criou em mim. Chorar por quê? Não é filho meu doente... não é parente... qual o motivo do meu choro, que até agora ainda resta dentro de mim?... Sinto a garganta se fechar... os olhos umedecerem... Não é meu rabo!!! Quero minha bolha. Ou não... talvez não queira perder o que há de humano dentro de mim.
Sentimentos são belos e doloridos.
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