quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 



Deixei o relatório descansar um pouco, restavam apenas, uns pequenos ajustes. Fui atender as roupas que estavam há horas dentro da máquina, abafadas e nem úmidas, a secura do clima já se encarregara de secá-las. Porém, cumprindo protocolos, fui estendê-las no varal. Algumas ficaram amassadas, já que secaram; outras ainda dão para usar sem passar o ferro. Sinceramente, ambas serão usadas sem consumo elétrico.

Hoje, eu estava à la Pollyanna (é assim mesmo a grafia do nome da personagem?). Não reclamei nem bufei ao estender as roupas. Fiz com calma e com todo o requinte de uma pessoa com manias. Camisetas nos cabides, mas separadas entre si conforme os donos. Grupos. Grupo de um. Grupo de outro. E separados entre si com um pregador diferente. Assim, facilita para quem for apanhar. O mesmo acontece com calcinhas e cuecas, só que sem cabides. Meias, só em par.

E assim, fui conduzindo minha cerimônia. Escutando os pássaros se arrumarem para dormir.

Há dias, sinto algo diferente no ar. Adoro ter esse dom: sentir algo diferente do ar. O tempo mudando. Algo estranho. Por vezes, quando comento sobre, as pessoas dizem ser impressão. Não para mim. É batata! Algo muda mesmo.

Ele veio, dizendo não ser engano não. Tem tempo que o espero. Já estava na hora de ouvir seu canto. Ainda não está forte o coro. Mais alguns devem estar chegando. Tão lindo, o canto do Sabiá!

Pode ser brega ou forçar a barra zen-chato, mas amo ter esse dom. E nos últimos meses, tenho aprendido exercitá-lo por questões de sobrevivência, de saúde mental. Fiquei ali, balde vazio, roupa estendida, escutando tudo, sem vozes. De humano, só as roupas secando mesmo. Eu fui me aninhar nos galhos para escutar melhor o mundo.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Espelho, espelho meu



Com a cabeça baixa, escovava meus dentes. Frente. Em cima. Atrás. Língua e céu da boca estão inclusos na limpeza. Enxaguo. Limpo a pia. Não consigo dormir se ela está molhada. Levanto o rosto e dou de cara com ele. O Espelho.

Ele me persegue, sabe? Discuto com ele, mando parar de me perseguir. Luta em vã. "Espelho, espelho meu, não diga quem sou eu".


A proximidade dos 50 anda mexendo com os meus sentimentos. "- Faltam somente 5 anos, querida!". Vem ele encher meu saco novamente. Alguns dirão que tá longe. Devo-lhes lembrar de que há mais de 20 anos, estava toda faceira cursando meu 2° grau. Não se diz 2°grau? Ensino médio? Mais uma prova do tempo ficando para trás e me levando mais adiante muito rápido. 50!


A internet te joga no mundo. E à moda também. Procuro por estilo moderno para mulheres cinquentonas e, agora, com um leve acúmulo de gordura sob a pele. Vejo coisas legais. Linho, nem pensar! Horrível de passar. Devo encontrar o ponto de intersecção das retas "roupa sem ser de senhora para 50", "não é difícil passar ou não precisa passar" e ainda, "cabe no bolso"? Não é possível não haver oportunidades às de classe média lascada. Já não basta ser lascada, tem que se vestir mal? Enfim, na busca googleana, vi ginástica para o rosto. Promete bochechas durinhas. Não sabia que bochechas também malhavam.


Levantei o rosto. Encarei-o. Comecei a fazer os exercícios. Vamos lá! 3 séries de 10. Vai Maura! Boca de peixe... solta... force um sorriso bem exagerado... solte.... 

 

Exercitando frente ao espelho (precisei para que os movimentos fossem corretos), meus olhos focaram nos olhos refletidos. Parei. Comecei a me ver. No início, meio de má vontade. Não, não vou fugir. Chegou o momento. Cabelos, fios brancos dando o ar de sua presença. Começam a se reproduzir. Nariz ainda empinado. Boca ainda sem elástico. Algumas manchas das gestações. Bochechas, só manter o ritmo da malhação. Queixo... mas abaixo... papada?!?

 

Fiquei perturbada. Só enxergava a papada. Corri novamente, para internet. Google, salve-me! Como acabar com a papada. De preferência, sem ser procedimento cirúrgico. Lipo com enzimas. Hummm, não é caro e dá pra parcelar no cartão. Hummm. Estiquei para ver como ficaria. Imaginar Imaginar meu rosto como 20 anos a menos. 

 

Veio ele novamente, suas com repreensões. "Suas idéias não correspondem aos fatos, o tempo não para". Não seria eu, a de 20 anos. O rosto dela era reflexo de sua vida, opções, emoções, sentimentos. Inútil esticar-me. Eu, 45. Estou muito diferente. Vida, opções, emoções, sentimentos. Já espero pela aposentadoria para ficar com as minhas linhas, costuras... e sonhar com o dia que os meninos estejam cuidando da vida deles e eu poderei viajar fora de época. Mais barato.

 

Fiz as pazes com os 45. Na verdade, na data deste texto, tenho 44.

 

Sorrio para o espelho.

 

Mas... tá! Alguém tem dica pra papada? Emagrecer resolve? Tenho receio de emagrecer muito e ficar com aparência de mais velha. Note a diferença, não desejo mais, ter aparência de jovem. Mas também de mais velha. Quero a aparência da época em que estiver vivendo.


sábado, 8 de agosto de 2020

Ground Control to Major Tom


Ground Control to Major Tom

Há algum tempo, veio a vontade de escrever abobrinhas novamente. Meu último texto foi em 2018. Vim fuçar aqui (estou escrevendo no meu blog escondido) e me deparei com textos desde 2008. São dois blogs perdidos. Reli alguns textos. Engraçada a sensação. Não me reconheço neles. Tenho a visão de que as Mauras daqueles textos, de anos distintos, de evolução ou involução próprias, bateram fortemente suas cabeças e pimba! Não sei como, todas se unificaram e veio eu. O preço de terem sobrevivido em uma única pessoa: amnésia. Quem são elas?

Voltar a registrar minhas matutações subiu à superficie, justo na hora em que um navio-petroleiro cruzava o mar. Você que me lê agora, saiba que o uso de metáforas é uma das poucas coisas lembradas agora nesta amnésica que vos escreve. Já me deram o toque que elas dificultam a compreensão do texto. Na minha cabeça, há liga entre o real e as palavras escolhidas. Mas, enfim... bateu a vontade de escrever o que penso, e bateu forte! Só que quando vim escrever, pá! Algo grande barrou a coisa. 

Gostei não. Adiante, entenderá mais ainda. 

Eu preciso da rua para escrever. Era andar de metrô... passar pela rodoviária (como eu adorava!)... é ver o movimento da rua... a pessoa que sempre pede algum trocado no mesmo lugar... o olhador de carros que passa a tarde cantando e eu no 3º andar na Promotoria, escuto... Além de escutá-lo, bato papo. Desconfio que ele tem algo fora do estacionamento. São as pessoas do trabalho... as observações... Minha escrita está nisso. 

E aí vem o navio-petroleiro: o tal covid. Ou sars-cov 2. Ou, dá licença da metáfora? Mamoninhas do inferno. 

Tudo para. Eu paro. Que linda a combinação do vermelho com o laranja daquelas flores que alinhadas assim no meu campo de visão, espetacular! 

Não tenho tanto talento com as palavras para escrever sobre o jardim que me rodeia.

Ontem, fui ao trabalho. Não voltamos ao presencial, mas precisei ir para pegar uns documentos e trabalhos sobre a mesa. Algumas pessoas, o vigia que pegou covid, ficou meio mal, e sobreviveu com menos 5 quilos. Uma loja que fechou. Outra que abriu. Um alterado que grita "A casa caiu! A casa caiu!" e eu o escuto do 3º andar. Eu me desacostumei desse mundo. Eu o temi... entrei em pânico por conta dele. E sem alternativa, precisei enfrentá-lo. 

Não doeu. Ainda tenho medo, mas medo racional. Vivi e vivo.

E cá estou, escrevendo. Não doeu. Ainda tenho medo, mas medo racional. Vivi e vivo.



*Como sempre, aviso: não reviso.



sábado, 15 de outubro de 2016

Fractal

Fractal. Teoria dos Fractais. Sabem? Desde que minha cachola absorveu tal conceito, enxergo fatos corriqueiros como pequenas imagens de algo maior.
Fui comprar absorvente. Gosto do de malha seca e com abas. Mas o disponível em casa, puseram tanta cola nas abas que você rasga a calcinha, mas não descola o troço dela. Emputeci. Além do calor danado feito nestes últimos dias. A malha seca, segurança de outrora, torna-se suplício entre as pernas.
Na prateleira, entre pacotes diversos, vi, pela primeira vez, o tal coletor de menstruação. Encaixa-se o copinho. Deu tempo? Tira, lava e coloca de novo. Deixei de ter nojo de mim há tempos. Avaliei a compra. Vou experimentar. Always (sem abas e cobertura suave, mais de 10 no pacote), 8 reais e alguma coisa. Coletor, 89 pilas. O período da compra definiu minha escolha. Ainda restam uns 10 dias para o pagamento. Fui de Always.
No banho, correndo para me arrumar a tempo para o trabalho, pensei: ainda tenho um caminho a percorrer de mãos dadas com esta visita mensal. Talvez, fosse um investimento ter aplicado os 89 mangos no coletor. Talvez, representasse uma economia se eu multiplicasse 8 e uns quebrados pelo tempo de validade do copinho. Hummm...
E assim, durante a menstruação e suas escolhas, captei a essência de um investimento a longo prazo e as benesses consequentes.
Fractal.
Ahhh, editando para jogar informação, caso não saibam. Não gosto muito da fonte, mas tá valendo para dar uma pincelada:
A geometria fractal é o ramo da matemática que estuda as propriedades e comportamento dos fractais. Descreve muitas situações que não podem ser explicadas facilmente pela geometria clássica, e foram aplicadas em ciência,…
PT.WIKIPEDIA.ORG

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Um novo tempo, apesar dos castigos

Ato comum à fase, virei-me de cabeça para baixo, abri a boca, e aos chacoalhos, despejei todo meu conteúdo. Hora de limpar a bolsa e partir para um novo rumo. No decorrer do papo, ouvi: "- Você deve passar um bom tempo na solteirice!". Seria o óbvio chegar a essa conclusão, dado o meu processo. Contudo, o solteira mesclado com ice fez subir um frio pela espinha. Como se fosse um campo tenebroso e escuro a ser ocupado por mim. Solteirice soou um estado permanente, algo crônico, e eu ainda tinha tantos capuccinos quentinhos a oferecer para serem tomados debaixo da coberta! O temor, o tempo, a frustração tomaram conta do meu ser.

Foram 7 anos. Eu os conto assim, ininterruptos, embora tenha havido intervalos. Momentos esses que fizeram dos términos algo de pouca fé. Voltávamos sempre. Sete anos... Raiva, alegria, prazer, decepção, incompreensão, ajuda. Sentimentos normais a algo que ultrapassou os temíveis 3 meses. Minha primeira experiência de relação duradoura. Feitio meu, pular fora do barco ao primeiro sinal de desavença ou possível dor de cabeça. A racionalidade era meu forte em matéria de relacionamentos. Assumo a culpa dela por, nem sempre, a outra parte sair confortável do meu campo de visão. Neste, algo foi maior a minha visão nua e crua a respeito. Relevei. Tentei. Insisti. Não me arrependo, pois cresci. E, apesar do clima petrificado instalado entre os ex (normal, diante a ocorrência recente da separação), conseguimos terminar uns 80 % inteiros e com a sensação de dever cumprido. Houve um começo, um meio e um fim, contrariando o senso comum daqueles eram participados dos intermináveis vai-e-vem. Ou seja, sim, a estória exauriu-se em si mesma. 

À solteirice. Não sei se peço ajuda ao Sérgio Chapelin e ele me mostre como vivem os solteiros? Onde vivem? O que comem? O que pensam?, numa edição urgente do Globo Repórter... Não sei se calço um salto e me lanço na noite... Ou se compro um pote de sorvete (ou faço brigadeiro) e fico zapeando na tevê... Ou saio passando cantada em todo mundo, prometendo uma noite furiosa de sexo... Depois de tanto tempo, ver-me solteira de fato e de alma, cria uma nova necessidade urgente: conhecer-me a fundo. Sinto que nessa corrida frenética por amor, não pude me conhecer como ser único, eu, só. Chegou a hora do grande encontro e, talvez por isso, eu esteja tremendo na base. 

Tenho a sensação de que seremos felizes para sempre. 


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Só por hoje

Guerreira que sou, às vezes precisamos ir à taberna, segurar uma grande caneca cheia, cantar algumas canções, comemorando grandes conquistas e colocar algum moço no colo enquanto a alegria ilusoriamente rápida invade a alma. Instalei o não-sei-se-tão-falado-mais Tinder no celular. 
Não... não... não... Sim. Opa, sim! Não... não... não... Hummmm, pode ser... Opa! Fulano aqui? Sempre o achei bonitinho e interessante, mas há época não prestei maior atenção, tampouco o corpo reagiu, pois era (e creio ainda ser) amigo do meu recente ex. 
Homem também é sem noção nas fotos. Nossa! Um cara peladão!
Até que esbarro numa foto de casório. Ele e ela, segurando taças de espumante, sorrindo alegremente para a câmera. Ela deve ter passado um dia inteiro se aprumando. Maquiagem comum às noivas. Cabelo comum às noivas. Sonhos comuns às noivas. E ele? Por que raios está no Tinder e por que raios colocou a foto do casório? Ou tá a fim de suruba a três... Ou é daqueles que sentem tesão por vida paralela... A única foto bacana sua, capaz de capturar interessadas, foi aquela com toda uma produção condizente ao evento... 
Mènage à trois, não creio. Geralmente, casais que desejam dar uma apimentada expõem fotos mais picantes. Uma bunda cavalgando... A mulher chupando... Enfim.
Relacionamentos. Como disse para minha chefe que me pediu digitar uma mensagem congratulando um colega por ter se casado recentemente, "- Olha, eu não sou a melhor pessoa para fazer isso!". No momento, sim, não sou a melhor pessoa para tecer comentários sobre relações amorosas. Aliás, creio eu, nunca fui. Tentei mergulhar na ilusão algumas vezes, mas a realidade entrou pela porta e o amor saiu fugido pela janela. 
Se eles estivessem sozinhos numa ilha, talvez. Aí sim, o amor os uniria para sempre, até que o resgate os separe. 
Ou se eles fossem imunes ao bombardeio de idéias, desejos e sonhos da grande manada. A insatisfação sempre dará o ar de sua graça quando vontades não próprias são inculcadas. 
Eu queria algo assim: pés no chão. Ciente. Cru. E nu. Enfoque no dia de hoje, não no amanhã. Seguir o "só por hoje" dia-a-dia e assim tocar o barco. Sem planos futuros.
Isso, relação sem futuro, mas presente. 
Por que poucos entendem a importância do presente? 
Detesto fotos que retratam vontades no futuro.
Consertando, sou sim, a melhor pessoa para falar sobre relações. 
Por favor, encha meu copo!

*Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida no embalo da rede
Matando a sede na saliva


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Abrace mamãe e durma.

Eu tenho um filho. Bom, tenho três, mas é dele de quem quero falar agora, sem os outros dois encontrarem uma predileção aí. Não há. Três criaturas diferentes. Três amores direntes, porém iguais em magnitude.
Ian.
Menino lindo. Carinhoso. Tem lá seus ataques de raiva irritantes aos meus ouvidos (e creio serem os meus igualmente irritantes aos ouvidos dele). Adora videogame (já gastei muito, não podendo). Sente um carinho especial por crianças menores. Quer pegá-las, apertá-las, beijá-las. Já disse a ele, quando indagada sobre "o que poderia ser quando crescer", para seguir medicina. Pediatria. Adora gibis. Principalmente, Mônica. Agora, também detona livros de tirinhas. Calvin, Snoopy, Mônica... Emociona-se com facilidade. Não raras vezes, peguei-o chorando com o coração, assistindo algum video no computador. O último foi uma série de imagens de filhotinhos recebendo carinho de seus donos. Chorou com o Onde Vivem os Monstros. Desconfio haver poesia dentro do peito do Ian.
Veio a mim inesperadamente. Já não estava mais com o seu pai e numa noite de agenda de contatos saturada, ele me procurou. E numa noite de carência e algum sentimento escondido, deixei-me ser encontrada. Um susto descobrir-me grávida após 8 anos.
8 do 5 de 2005, às 8h55, veio ele pro meu colo.
Nesse fim de semana que acabou de passar, veio a crise de bronquite nele. Igualzinho a mim, não pode esfriar e ela ataca. Dormi abraçada a ele de sábado a domingo. Medo de uma piora súbita, melhor eu grudar meus olhos nele. Domingo para hoje, conseguiu ele vir pra minha cama, agora compartilhada.
Música dos Beatles na vitrola. Risos. O terceiro tentando ler. Broncas. "Ian, quieta! Você precisa ficar sossegado. Sua bronquite piora!". Choro.
Momentos bons, tornam-se tristes lá na frente. Isso eu já aprendi desde pequena e este aprendizado sempre me fez parecer desumana quando rio dos meus infortúnios, pois o contrário também acontece.
Ian adiantou-se. Sofreu, dentro do presente, o futuro. Olhou para mim, beijou-me várias vezes na face, chorou e disse que não suportará a saudade... a minha ausência...
Inevitável, filho. Posso tentar viver - a tentativa é uma promessa; conseguir, sabe-se lá - até ficar bem velhinha, com minhas tatuagens escorrendo braços afora. Posso tentar te contradizer aos seus netos, bisnetos...
Viverei - outro compromisso - aproveitando cada segundo da companhia de vocês três, meus donos. Deixando-me aprender com vocês e permitindo-lhes a aprender comigo.
Assim, meu Ianzinho, estarei sempre com vocês. E com seus filhos. E com seus netos. E, quem sabe, bisnetos?
Um dia, você entenderá que há outro meio de ser imortal até onde você se permite.
Te amo.
Amo Guilherme, Ian e Vicente.
E agora, a mim.