Atendo ao telefone, anunciando o órgão público para o qual trabalho, meu nome e, de quebra, para criar um arzinho de simpatia, um boa tarde. Meu receptor que faz vezes de emissor - durante o contato, trocamos muitas vezes o papel - diz para que veio. Deseja falar com o doutor. Regra imposta - sinceramente, quando sou eu a pessoa que liga, detesto ouvir tal pergunta. Respondo curta e grossamente - indago quem deseja. Ouço: "É o Delegado Fulano de Tal!". Dou uma risadinha muda ao ligar a imponência do título-profissão-ganha-pão à estatura de quem o profere (já vi a figura tete-à-tete). Se fosse alguém ligado a algum caso, ok. Entenderia o porquê de delega, afinal, estaria se identificando dentro de outro contexto... ligado ao seu ofício. Porém, conhecido de roda como julgo ser, esposo (acho breguérrimo este termo... "meu es-pooooooou-so") de uma colega de trabalho do dotô, o termo designativo do cargo em questão, seria desnecessário ao anunciar para o salão da corte, a sua chegada.
Lembrei do cabo da PM. Após apresentação voluntária e não requerida, frisando bem seu posto no corpo policial local, insistiu para pagar minha entrada no bar. Não era falta de grana em cash, ou em cartão de plástico mesmo. Foi puramente por conta de ida não planejada. Compari ao lugar caminhando contra o vento, sem lenço, nem documento. De havaianas, diga-se. 'Gardecida, disse não ser preciso. Sabia muito bem o preço a ser pago e, olhando bem a figura, o valor exigido estava bem além do material oferecido. "Cabo da PM, enfie a entrada no cu, porra! Não vou entrar!". Certamente, não estaria ele exercendo suas funções ali. Certamente, se eu traduzisse fielmente meu sorriso amarelo, seria presa por desacato à autoridade. Pois bem.
Curioso isso. Qual seria o núcleo do sujeito? Em cada dever passado para casa, a professora de português dava umas vinte orações para serem analisadas morfológica e sintaticamente. Núcleo do sujeito, oras, sempre um substantivo. Na luta atual pela sobrevivência, não mais o homem demonstra suas habilidades em passar a perna na natureza, sobrevivendo. Mas sim, o doutor, o delegado, a excelência que demonstram suas inabilidades - sim, pois apoiar-se no adjetivo incorporado a sua estória já demonstra total inaptidão... E passam a perna nos homens.
Hey, é a Humana Maura que gostaria de falar.