Não sabe dizer, ao certo, a partir de qual fala do explosivo discurso, seus ouvidos não mais levaram a informação ao cérebro para ser processado. Os dados de saída - velhas aulas de informática que lhe valeram, apenas, para futuras comparações - não eram encaminhados até a boca. Também soltos de forma violenta, numa disputa idiota cujo prêmio seria a ilusória sensação de ter se sobreposto ao outro. Cabeça baixa, olhos perdidos e boca entreaberta, sem soltar som algum, corresponderiam aos dois murros dados sobre o tatame indicando desistência.
Tudo girava ao seu redor. Não. Nâo que ela fosse a peça fundamental e todos a veneravam natural ou artificialmente. Um nervoso contido. Uma vontade de se jogar contra a parede. De gritar. De chorar. De sumir. Enjôo. A sua própria casa a vomitava. Ela fazia mal ao seu lar. Nada de abraços. Nem da cama. E ele ali, na sua frente, gesticulando... falando... Eu provoquei?.
"Pega o carro... Vai ao cinema... Sai... Faça alguma coisa... Mas pare de encher meu saco!".
Isso, escutou. Contudo, não houve processamento dos dados de entrada. Máquina inútil. Algo a prendia. Blocos de concreto amarrados nos pés? Nâo. Muito mais pesado. Por que não consigo? O que me impede? Por quê?.
Embora já houvesse passado por alguns momentos indigestos, ela via a vida como sua velha coleção de papéis de carta. Era moda no seu tempo de adolescência. Todos eram guardados cuidadosamente numa pasta com saquinhos plásticos. Em cada um, dois. Frente e verso. I Love You. Ursinhos Carinhosos. Betty Boop. Desenhos românticos. Cores suaves. Folhas e folhas contando uma história apenas visível à dona: seu sonho por uma vida protegida. Esse maldoso oráculo havia dito à ela, nessa época, sobre seu homem (este que está a gritar), sobre seu filhinho, sua casa cheia de rococós... Não disse muito sobre ela, é verdade.
"Tenha uma vida... vá viver..."
Talvez o conselho de ir pegar um cineminha seja para isso. Começar a viver. "Eu não estava?".
Uns trezentos papéis. Mais ou menos. Estão sobre o guarda-roupa. Vira-e-mexe, esbarra no futuro frustrado quando é dia de tirar o pó de cima dos móveis. Bebês não podem conviver com poeira. Bagunça. A visível. Aquela que há dentro de cada um, disfarça-se. Há um tapete interno para debaixo do qual, toda a sujeira é varrida. Limpa-se o rosto. Fortifica-se a voz. Dá um sorriso.
Tudo deveria sim, girar ao meu redor! Cadê minha recompensa? Meu reconhecimento? Sou peça fundamental dessa porra. Assim que soube da vinda do menino, planejei minha saída do trabalho. Filho tem que ser olhado, de perto, pela mãe. Duvido que arranjasse alguém assim... cuidadosa... Já teve a experiência, infeliz! Se eu tivesse sido como a vagabunda da mãe do seu primeiro filho. Rá! Queria ver! Fico aqui... tudo limpo... limpo... janta feita... não lhe cobro transar. Transar... Sou... Sou... Será isso? Há coisas que... Eu não sei. Somos casados. Marido. Mulher. Nâo precisa de... de... coisas. Tem o menino... quarto ao lado... Levo o lixo lá embaixo. Vejo a vizinha. Ela é só. Tem filhos. Coitada! Deve ser complicado ter uma casa só. Não teve sorte nas suas escolhas. Meu casamento foi tão lindo...
"Pega o carro..."
Banho.
Alguém do andar de cima escuta uma música. A janela de um dos quartos, em todos os apartamentos, dá para um vão. A dos banheiros também. Um suspiro, todos escutam. E o cantor diz que nada pode fazer por causa de sua mulher. Minha mulher não deixa não. Vida sempre dedicada. Transformava-se em duas, três... tudo para andar conforme o esperado. Conforme o normal. Agora, chacota.
Virei piada nacional.
Chave do carro. O pequeno ficará bem. Aviso que há janta pronta dentro da geladeira? Adiantei e coloquei tudo dentro do refrigerador para facilitar à noite. O bebê não vai morrer. Tá dificil de abrir a porta. Medo. Tenho medo. O que vou fazer?
Talvez seja para, apenas, afrontá-lo. Raiva. A bebida lhe dá coragem. Já não sabe se para futucá-lo, realmente, ou para provar a si mesma. Ou, aliviar a dor. Ou, a solidão. Não sabe. Mais uma dose. Engraçado olhar outro cara. Eu, tão... tão...
Ele se enfiou no banheiro assim que entramos. Eu, já nua... "Vá viver...". A luz foi apagada. Passos em minha direção. Um bafo quente. Não tenho coragem de ver nem desviar meu olhar para o redor.
- Já pelada?
- Come o meu cu.