Era dia de mudança. Saíamos de Minas. Espatifávamos em Brasília. Dia quente. Não me vem à tona o motivo de ter ido à rua naquele dia. Lembro-me de ter parado, no retorno, um pouco próximo a minha futura ex-casa. No fundo, um alívio. O pesadelo da enchente inevitável vinda com a chuva forte - como tantas vezes fora narrada pelos vizinhos - saíria de vez da minha vida para dar espaço a outros pesadelos. Olho para o chão sem um gota de piche. A poeira fina. Ninguém por perto. Naturalmente, deito-me ao chão. Rolo para um lado. Rolo para o outro. Sobe à superfície, agora, anos e anos depois, um vestígio guardado pela massa cinzenta do prazer sentido. Como era bom! Misturar-me à terra. Sujar-me. Sujar-me.
No fundo, eu sempre fui. Percorrendo vida afora, fui acrescentando uma coisa aqui. Outra acolá. Porém, sempre fui. Hoje, lembro-me da Maura-criança... Maura-adolescente... e percebo nitidamente que eu já era àquela época. O tempo me deu tal poder: vejo-me. Aquela Maurinha, suja, rolando no chão, sendo interrompida em seu transe por uma voz materna, surpresa diante à cena "- O que você está fazendo, Maura?", cresceu. Por um intervalo, perdeu o contato consigo mesma que tão logo foi refeito com a ajuda das lembranças.
Mais à frente, "- No dia em que arrumar um namorado, ela esquece de casa!" - e todo dia, enquanto durou a visita da avó paterna, escutava tal profecia enquanto limpava a lambança. Incomodava-me por deveras ver tudo bagunçado, sujo, emporcalhado. E incomodava-me muito mais ainda atribuir minha cura a um pau (depois, veria que, de fato, um caralho pode ter suas propriedades terapêudicas). A casa em ordem representava meu mundo em ordem. Precisava conhecer - e, para isso, precisaria das coisas em seu devido lugar para tão logo identificá-las - para sentir a tal segurança sob meus pés. Um ninho confortável onde todas as ações e reações são previsíveis.
Poeira escondida sob o tapete. No fundo, sempre gostei do sujo. Dos pensamentos maus. Do instinto expresso da forma mais nua e crua possível. Unhas impregnadas de terra de quem se lançou e não ficou sobre um pedestal incólume... protegido... Limpar-me era uma atitude ilusória. Gosto de me sujar. Emporcalhar-me. Bagunçar-me. Sentir-me instigada a me testar, então. Superheróis não se testam, já sabem quais poderes tem. Os vilões precisam arquitetar, planejar, repletos de pensamentos sujos, para vencer o chato do bem. A Maura-criança, sob uma inocência a pleno vapor, já sabia disso. E rolou na terra.
Eu rolo na terra.