terça-feira, 23 de setembro de 2008

Calafrio



Senti os vírus tomando, aos poucos, meu organismo. No início da tarde, apenas a garganta reclamava sua existência. Os poucos, tenho a sensação do meu rosto estar mais inchado. Pouco mais, o corpo dói e prevejo a febre. Gosto de senti-la, a febre, assim como a dorzinha gostosa de se sentir nas juntas. Comentando com os colegas, descubro que não estou só neste meu estranho gosto: um outro também curte uma ao som de uma alta na temperatura corporal como estratégia de combate ao organismo estranho.
19h00, hora de fechar o boteco. Recolher a bolsa. O celular. Dar uma ligadinha pra casa avisando que a estrada é longa e o caminho é deserto. Hoje não haverá aula. Ou eu própria me enganei com a vontade expressa de me enganar e seguir pra cama. Melhor lugar para curtir o barato febril.
Buzino. Abrem o portão. Digo oi. Esquento alguma coisa pra devorar. Dou dinheiro pra coca-cola (gelada, vamos atiçar com vara curta). Sigo pro banho.
Banho quente. Como já escrevi, não sigo o conselho de beleza passado pela bisavó. Segundo a avó, sua mãe quando falecera, os seios eram pêras. Segredo? Água fria. Lambuzo-os de óleo hidratante na tentativa de amenizar o efeito da água quente. Pelando. Hoje não tem figuras na parede, para a minha decepção. A claridade nem o desenho do azulejo ajudam. Só vejo letrinhas esparramadas pela porta do box, como se alguém estivesse vindo com uma tigela de sopa com aquele macarrõezinhos; tropeçou no tapete e derramou. Tento juntá-las e decifrar a mensagem. Não é hoje. Sento-me.
Tento ver algo na espuma, então. Eu preciso ver algo. Não, não é hoje. Os vírus não permitem visões. O pedaço de bucha no chão. Olho fixamente. Quem sabe não consigo movê-lo? Transformar-me-ia em super. Telecinética. Por várias vezes já tentei grudar meus olhos no objeto, desviar-me de quaisquer pensamentos a não ser a vontade da massa cinzenta mostrar seu poder de atingir o meio externo sem fazer uso de instrumento algum, seja as mãos, pés, braços...
Nem um milímetro. Por que não me deitar? Uma vozinha filhadaputa, que outras tantas vezes jogou-me água fria, diz que não. E por que não? Não há razão que me impeça se estou a fim. Há? Sinto, mas não é o suficiente pra mim. Muitas vezes lancei-me noutros caminhos para futucá-la. Não dá? Deu. A água lá de cima bate no meu peito. Fecho os olhos.
Que o mundo acabe!

Nenhum comentário: