Eu tenho um filho. Bom, tenho três, mas é dele de quem quero falar agora, sem os outros dois encontrarem uma predileção aí. Não há. Três criaturas diferentes. Três amores direntes, porém iguais em magnitude.
Ian.
Menino lindo. Carinhoso. Tem lá seus ataques de raiva irritantes aos meus ouvidos (e creio serem os meus igualmente irritantes aos ouvidos dele). Adora videogame (já gastei muito, não podendo). Sente um carinho especial por crianças menores. Quer pegá-las, apertá-las, beijá-las. Já disse a ele, quando indagada sobre "o que poderia ser quando crescer", para seguir medicina. Pediatria. Adora gibis. Principalmente, Mônica. Agora, também detona livros de tirinhas. Calvin, Snoopy, Mônica... Emociona-se com facilidade. Não raras vezes, peguei-o chorando com o coração, assistindo algum video no computador. O último foi uma série de imagens de filhotinhos recebendo carinho de seus donos. Chorou com o Onde Vivem os Monstros. Desconfio haver poesia dentro do peito do Ian.
Veio a mim inesperadamente. Já não estava mais com o seu pai e numa noite de agenda de contatos saturada, ele me procurou. E numa noite de carência e algum sentimento escondido, deixei-me ser encontrada. Um susto descobrir-me grávida após 8 anos.
8 do 5 de 2005, às 8h55, veio ele pro meu colo.
Nesse fim de semana que acabou de passar, veio a crise de bronquite nele. Igualzinho a mim, não pode esfriar e ela ataca. Dormi abraçada a ele de sábado a domingo. Medo de uma piora súbita, melhor eu grudar meus olhos nele. Domingo para hoje, conseguiu ele vir pra minha cama, agora compartilhada.
Música dos Beatles na vitrola. Risos. O terceiro tentando ler. Broncas. "Ian, quieta! Você precisa ficar sossegado. Sua bronquite piora!". Choro.
Momentos bons, tornam-se tristes lá na frente. Isso eu já aprendi desde pequena e este aprendizado sempre me fez parecer desumana quando rio dos meus infortúnios, pois o contrário também acontece.
Ian adiantou-se. Sofreu, dentro do presente, o futuro. Olhou para mim, beijou-me várias vezes na face, chorou e disse que não suportará a saudade... a minha ausência...
Inevitável, filho. Posso tentar viver - a tentativa é uma promessa; conseguir, sabe-se lá - até ficar bem velhinha, com minhas tatuagens escorrendo braços afora. Posso tentar te contradizer aos seus netos, bisnetos...
Viverei - outro compromisso - aproveitando cada segundo da companhia de vocês três, meus donos. Deixando-me aprender com vocês e permitindo-lhes a aprender comigo.
Assim, meu Ianzinho, estarei sempre com vocês. E com seus filhos. E com seus netos. E, quem sabe, bisnetos?
Um dia, você entenderá que há outro meio de ser imortal até onde você se permite.
Te amo.
Amo Guilherme, Ian e Vicente.
E agora, a mim.
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