A sede noturna e a vontade de fazer xixi são as únicas coisas que conseguem me fazer levantar da cama depois do sono ter tomado conta do corpo e decretado sua prisão à cama.
Ao bem da verdade, se não houver suco dentro da geladeira, a urina se torna rainha déspota absoluta.
Levantei-me. Fui cambaleando, tateando as paredes, rumo à cozinha. Fui ao supermercado hoje.
Passo pelo corredor, abro a porta do refrigerador com a sensação de ter visto alguém na sala. Sensação, não. Certeza. Vi alguém sentado à cadeira.Não esboçou surpresa ao ver gente da casa acordado e em pé. Isso, de certa forma, tranquilizou-me um pouco. Se ladrão fosse, terminaria de me acordar aos berros, imobilizando-me de alguma forma e enchendo meus ouvidos com ameaças.
Estranhamente, o que vi entre as pálpebras foi um jogado frente as minhas fotos penduradas na parede. De alguma forma, carrego minha família comigo,embora ela me considere ovelha desgarrada pelas minhas ausências.
E estranhamente, entre as brechas da minha suposta descrença, pedindo ao parente recém morto para não me visitar, pois o medo cegaria a saudade... o medo... voltei pelo mesmo caminho, freiando perante meus parentes pendurados.
A figura não me era estranha, embora, fisicamente, nunca tenhamos cruzado um com o outro. Não dei motivos, acredito, para isso. Se assim foi, por que agora?
Quente, contemplava, absorvido, os sentimentos retratados.
- Nunca achei que existisse de fato.
Iniciei a conversa, convicta da superioridade humana e fiel a minha ausencia de fé.
- Também não, a mim.
Respondeu-me mansamente.
- Fiz algo errado?
- Fez?
- Nada que prejudicasse, ou se prejudicou foi somente a mim. Conta?
- A mim, não contaria. Se foi dotado de livre arbítrio por Ele, a lógica seria não contar.
- Certo. Quer chá?
- Se não for demais.
Água quente não mata sede. Não a minha. A surpresa da visita me fez sentir vontade de mais água camuflada. Não por piadela, a primeira coisa que me veio à mente para beber, e oferecer, foi algo quente.
Duas xícaras. Sentei-me ao seu lado. Revi os meus, mergulhando nos retratos daquilo que não se via enquadrado, mas que preenchia o ar entre os modelos. Saudades.
Abracei-o forte. Ouvi um suspiro de cansaço. Meu peito comprimido ao dele aconselhou-o a aceitar nossa solidão. Distraímo-nos correndo e atacando um e outro e é só. Sós.
- Boa noite.
Deixei-o para me preparar ao dia seguinte.
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