sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bailan sin Cesar

E eu estava a matutar sobre a liberdade. Esta que nos foi imposta como castigo, vestida com o nome de "livre arbítrio". Dois caminhos: optando por um, a recompensa; por outro, um preço a ser pago. Ruminando mais um pouco, não somos tão livres assim. Podemos até nos enganar, chegando-se à conclusão que, sim, há liberdade sim. Sou livre porque faço escolhas - sejam elas boas ou ruins. Eis o meu vento nos cabelos a todo o vapor. Não sou conseqüência daquilo que me foi imposto externamente, mas daquilo que me impus conscientemente. E arco com os resultados positivos e/ou negativos. Reflexo daquilo que eu gostaria que fosse. Ou acho que assim o é, como mecanismo de autodefesa. De alguma forma, preciso lutar contra o mundo ao qual estou circunscrita e uma das minhas táticas de guerrilha é ver-me singular. Única. Apoiada na minha suposta liberdade.
Blá... blá... blá... Não sou livre droga nenhuma. Qual a porcentagem para se entender libertae dona absoluta do meu nariz? Se eu disser que sou uns 80%, sou livre? Tal qualidade só se aplica a 100%? Conceitos absolutos não entram em minha cabeça sem uma refutação qualquer. Para mim, absoluto não existe. Nem o sim, nem o não. Sou do partido do talvez, dando-me asas a reflexões maiores e nunca encaixando uma situação numa dicotomia rígida.
A janela me mostra um rebuliço a metros de distância. Escuto Dona Adelaide esclarecer de que se trata de um defunto. Ela o viu quando descia pro trabalho. Parecia ser morador de rua. Corpo coberto por um lençol branco, apenas os pés calçados e parte do cabelo ficaram à mostra (indaguei-me sobre quais indícios evidentes, a moça da copa concluiu tratar de algum mendigo). Entre um gole de café e uma tragada, tento imaginar o que houve com o moço. Assassinato? Mal-estar súbito e fatal? Auto-extermínio? A visão não me oferece mais dados sobre o acontecido. Tampouco carrego comigo um binóculo. Vivos ou mortos, as histórias pessoais me interessam. Não que eu tenha xeretice aguda. Melhor, quiçá eu a tenha mesmo. Interesso-me pela sorte humana e o que se faz para esquecer o único propósito da existência: passar, num desconta senão fede, a carga genética herdada involuntariamente. Tornar-se imortal, assim como os pais, avós, bisavós e por aí vai, até onde for possível. Pronto! Fui jogada para este mundo de cá. E agora, José? Que faço eu? Corro... corro... corro... trepo... engravido... dou a luz... Participação cumprida. E agora? Corro... corro... corro... procuro saber se há mais alguma coisa a ser feita. Aliás, preciso saber. Como ficar acá sem nenhum propósito maior? Correr me faz esquecer da falta de razão.
Deixo o morto em paz. Vou ao banheiro. "- Adelaide, donde está o papel higiênico?". Livro-me da dor insistente que me acompanhou desde minha casa até o trabalho. Lavo as minhas mãos com aquele sabonete horrível fornecido pela empresa que aqui presta serviços. A pele sai ressecada, suplicando que a unte o mais rápido possível. Olho-me no espelho. A luz interfere na maneira como meus olhos captam sua dona. No gabinete higiênico mais próximo a minha sala, a claridade faz-me admirar alguns pontos. A boca, os olhos, o nariz... ainda têm lá a sua graça, mesmo não multiplicando as células, o organismo, como fizera há 10 ou mais anos atrás. Lá no outro, pelo qual escolhi por ser mais longe de todos, dando-me um pouco mais de liberdade a um momento íntimo e animal - as necessidade é que me ligam à natureza e toda a sua influência sobre mim - o ambiente é um pouco mais escuro. Vejo-me de outra forma. Como se, agora, defeitos ficam muito mais evidentes. A visão não agrada meu ego, mas futuca minha massa cinzenta.
É errado pensar que sou uma pessoa vaidosa. Nunca fui. As vezes nas quais fui impelida a fazer algo em relação a minha aparência foram nada mais que uma resposta ao meio. Não posso negar que sou, também, resultado dessas interações eu-outros-mundo. Por mais que se diga estar cagando e andando pra tudo e pra todos, de alguma forma somos atingidos pela realidade projetada por cada um. Sempre achei ser a inteligência, a pena colorida da indumentária. Como só isso não basta, acabo por me preocupar com outros lados não tão importantes assim, mas que contam quando se trata de satisfazer outras necessidade humanas.
80%. Calcularia por volta deste número. Absoluta ou relativa, a liberdade? Dançar conforme a música? Ou eu é que escolho se danço ou não? Passar o creme nas mãos porque o clima me impõe... ajustar-me fisicamente porque a necessidade de procriar - não necessariamente, mas a vontade nasce daí - me impõe... deparar-me com um morto, porque o ato de outra pessoa me impõe...
Teoria dos jogos. Decisões alheias afetam as minhas. Ou forçam as minhas. Mesmo que eu não as queira.

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