terça-feira, 15 de junho de 2010


"A Maura já está aí?", escuto duas ou três pessoas perguntarem lá da copa. Fico calada, à espera de algum comentário adjunto à interrogativa com um que de exclamativo. Assim, não respondo eu mesma em voz alta: sim estou. Tragam-me café ou mando cortar a cabeça!
Sou uma pessoa sincera, acho. Ou, melhor, sou forçada a ser. A mentira logo é evidenciada pelo meu tom de voz, pescoço rijo ou gaguejadas. Além do indício óbvio e pertencente ao manual Saiba Mentir: não encompride a estória. Dou todos os detalhes meticulosamente elaborados. Horas, pessoas, acontecimentos, tudo. Tudo para a outra pessoa montar dentro de si,o enredo. Imaginar-me dentro da situação fantasiosa e, diante tantos detalhes perfeitamente dispensáveis numa situação verídica, duvidar dela. Não sei por que, mas alguém duvidar de mim é algo extremamente aborrecedor, por isso, o esforço descomunal à minha imaginação.
Não diga ou expresse dúvidas quanto a mim.
Há um canudo dentro da garrafinha de pimenta. "Duvido que você tome o caldinho da pimenta pelo canudo!". Hum, duvida? "Sim, duvido!". E o duvido se aloja no pavilhão auricular em um duuuuuuu (leia-se esse duuuuuu, como se os us fizessem círculos no ar)- viiiiiii - doooooo. Pronto! Minha honra foi mortalmente ferida e assim estarão, também, minha boca e estômago. Chuuuuuup! Não duvide, señor!
Há tantas coisas mais importantes para se provar minha honra. Contudo, de grão em grão, a galinha enche o papo, non? Ou, nas pequenas coisas estão o início das grandes. Uma mãozinha ali, deixada como quem não quer nada, displicente, ops! pode causar grandes turbulências.
Meto a boca no canudo.
O meu tédio e desânimo, caídos feitos bigornas sobre a minha cachola, é muito bem notado por todos aqui. Menos pelo chefe, o que agradeço à Shiva e faz-me rever a minha incapacidade em aplicar lorota. Talvez, e eficiência esteja ligada ao alvo. Voltemos mais tarde a este ponto. Entediada e desanimada, percorro desaceleradamente a roda dentro da qual estou inserida. Para que correr, correr e correr se chegarei ao mesmo ponto? Ok, virá pessoa me dizer ser a falta de foco, ou objetivo, motivo das passadas em câmera lenta. Bom, imaginemos: quero um puta apartamento, carrão, peitos maiores e bunda dura (sim, para este último item, deveria correr mesmo). Para isso, grana. Para grana, foco. Foco, corro-corro-corro. Consigo. E então? Em essência, fechei um ciclo. Dei uma volta completa. Vou recomeçar. O ramster recomeçará o seu ciclo.
Por que é de interesse social essa rotina? Até mesmo os desejos são inseridos em um rotina. Rotina que se confunde com padrão. Os anseios são tão parecidos entre um e outro. Não digo que não há diferenças, pois seria muito radicalismo. Um sim ou um não absolutos não me descem pela goela. Assim como o padrão. Destruir para reconstruir. Primeiro, acaba-se com a provável personalidade original do indivíduo e depois, incuti-lhe desejos de uma classe média típica. Ramsters. Ramsters. E ramsters.
Sim, pessoas, cheguei muito antes do horário previsto hoje. Não para sair logo, pegar minha cor-ne-ta (seja qual for a diferença, recuso-me chamá-la de vuvuzela por conta da televisão) e torcer pela seleção. Façam isso por mim. Quero é logo chegar em casa, tirar meu tênis, botar meu short e dormir o que deixei de dormir nesta madrugada, pensando na cruel mudança de minha rotina, por conta do jogo, fazendo-me acordar muito mais cedo e vir.
Cadê a porra do café?

Ah, a eficiência da potoca condicionada ao alvo dela. Talvez não seja necessário explicar, pois muitos devem ter tal conclusão dentro de si. Aliás, muitas coisas não são necessárias explicar. Basta cagá-las e o mundo solidariezar-se-á: há bosta dentro de todos e, eureka!, todos cagam. Assim, no fundo, é de interesse a lorota ser percebida de imediato. É uma mentira sincera. Você quer gritar a verdade, mas um outro sentimento qualquer - como pena, constrangimento e por aí vai - muda fracamente as palavras, de modo ser perfeitamente perceptível aquelas reais.

Trouxeram o café.

Um comentário:

Dmitri Tsirbala disse...

os hamsters e suas rodinhas. correm para nada. são testados em laboratórios, drogas que são ou serão usadas por humanos. não descendemos do macaco, mas sim dos hamsters.