Entro no banho. Ahhh, como amaldiçôo o alto tributo pago por conta da energia elétrica! A água quentinha escorrendo cabeça abaixo (bom, nestes dois três últimos banhos, fora a cabeça, pois não posso lavar os cabelos antes de 48 horas, pelo menos, por conta dum.... ehhh... tratamento que fiz)... lavo o rostinho adequadamente... Método seguido diariamente, primeiro cabeça, depois tronco e braços... Epa! Raios! Esqueci o diabo do frasco no outro banheiro! Não há um banheiro só meu e utilizo ora um, ora outro, carregando meus bagulhos higiênicos. Acostumei-me a usar o diabo do sabonete líquido, com ph balanceado, e esquecê-lo frustra meu santo banhinho. Daí, toquei-me. Oh, não... não é acá um conto erótico. Toquei-me, sob a água, no sentido, matutei... pensei... avaliei... No quê estou a me transformar? Noutro dia, no salão, vendo a mulher futucar o meu dedão do pé, tem um diacho duma pelinha que todas dizem que há, mas não vejo, e ficam cavucando com aquele pauzinho, fazendo doer pra chuchu, lembrei que não há muito tempo, realmente estava cagando e andando pr'estas cousas. Unhas das mãos, pés, bigode - não, Maura, buço... aliás, uma piadela, quem não tem mão, maneta; perna, perneta; e punho? ho ho ho E buço? ho ho ho - cremes, óleos e afins... Era eu baranga? Não, não me achava. E hoje, não vivo sem meu gelzinho de limpeza facial, meus cremes hidratantes - que no fundo, não afastam o inafastável, o tempo e as conseqüentes rugas - meu sabonetinho hidratante Dove, meu sabonete de xoxota, meus xampuzinhos, meu óleo corporal Natura... Quiiisso? A idade vai impondo necessidade?
Sentei-me, então, frente ao grande espelho, com a toalha enrolada na cabeça, hora do eu com eu mesma, esperando a moça pra vir picotar meu cabelo. Moça recém-chegada de Sum Paulo, pode-se dizer. Cheia de tatuagens, dois alargadores, sotaque... Disse que, assim que me viu, logo pensou que se tratava de uma mais doida que ela. Ri em agradecimento ao elogio e indiquei como queria, mais ou menos, as minhas madeixas. Algo meio assim, mostrei uma foto de exemplo. Tesouradas e mais tesouradas... ela foi empolgando... "Que tal passarmos uma máquina aqui?". Ooopa! Proposta muito moderna pro meu ambiente de trabalho. Infelizmente, meus desejos já são controlados pelo meio (ou não, por vezes). Enquanto corta-se daqui e acolá, observo uma certa movimentação no salão. Banqueta estofada para se colocar os pés... os japas que, suponho eu, devem ser donos do salão, se dirigindo até à pessoa... Um copo d'água e vários sorrisos abandejados... Levanto os olhos... Sim, o rosto não me é estranho... tenho vivido meio afastada da tevê, e de lambuja, de revistas, jornais e afins... ando meio bunda de índio, de fora. Se bem que, nas minhas últimas observações, já não se fazem índios como antigamente... Enfim, quem é? Quem é? Opa! É aquela ministra... Dilma Roussef... Hummmm! Será que é bom ter os ovos lambidos, metaforicamente perguntando? Será que é bom ser tratada com tanta pompa em decorrência do cargo, do poder que exerce? Faz isso bem? Daí, n'outro dia já não é mais ministra, o tratamento é outro... e aí? Mas... ah, no fundo, deve ser interessante as pessoas se abandejarem pra você... É?
Realmente, difícil de avaliar. Pode ser que seja como meus singelos produtos de beleza e bem-estar do ego. De repente, encontra-se sem e aquilo faz uma falta danada. Frustra-se. Incompleta.
Ah, futilidade.
Em franca recuperação da semana infernal que tive. Provas. Eu, caxias. Não consigo enfrentar prova sem ter estudado. Aliás, vou estudar mais. Afinal, quero meus ovos lambidos.
E ela leu Caras.
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