quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Bolotemos.

Lá se foi meu bandequinho cuidadosamente preparado na noite anterior. Como há algum tempo estou tentando tirar o Vicente de mim (o pequeno com quase dois anos e sobras da gravidez persistem sobre mim), uma carninha magra, salada e vagem. O filho do meio doente fez com que meu corpo e mente ficassem em outro plano e assim fui ao trabalho depois de uma madrugada agitada, tentando calar a sinfonia ecoada pelo peito do Ian.
Após a bitoca de despedida, desejos de "bom trabalho" e avisos "qualquer coisa, me liga", carro e marido viraram a esquina e lá dentro do automóvel, meu almoço e suas calorias meticulosamente calculadas se foram no banco de trás. O jeito, agora, era gastar R$ 19,90\kg no restaurante do trabalho.
Extrapolei meu limite de 5 a 6 reais (folhas e um franguinho grelhado não costumam pesar muito). As opções eram muitas entre legumes, verduras, carne... Ah, croquete de soja! Delícia. Oito pilas e a boca pedindo por um chocolatinho que a minha pãodurice (e vontade de voltar logo aos 50 e poucos quilos) não me permitiu. R$ 2,80 quatro quadradinhos do meio-amargo? Nem a pau, Juvenal.
Talvez os pinguinhos de azeite... ou o molhinho jogado sobre a salada... Algo causou revolução intestinal. Uma pontada suspeita e o desejo supremo de tudo não passar de gases. Controle esfincteriano (vulgo aperta o cu) e contar até 10 não me deixariam passar por situação constrangedora caso alguém entrasse em minha sala.
Não. Nada de metano.
Pontadas.
Banheiro.
Alívio por ninguém estar no recinto reservado à satisfação das necessidades fisiológicas do sexo feminino. Lançando mão da tática "bateu n'água, descarga imediata", mesmo que alguém entrasse aos 45 minutos do meu segundo tempo, não perceberia o que se sucedera ali. Eu sairia, lavaria minhas mãos, comentaria alguma bobagem sobre aquele dia de trabalho e xispa. Aliviada e feliz. Linda, acima de qualquer suspeita, aliviada e feliz.
Escolhi o box de costume. Aquele ali, encostado na parede, à direita de quem entra. Tudo tranquilo. E tranquila me sentei. E sentada, pensei: "Aqui não é um banheiro?". A resposta foi afirmativa. "E, bom, todo ser-humano não caga?". Mais uma vez, sim. "O que há de errado, então, se alguém perceber que alguém, eu, cagou?". Assim, o que há? Senti a liberdade batendo n'água e senti a liberdade em não apertar de imediato a descarga. Tuuuudo ao seu tempo, sem pressa, sem constrangimento. Caguei, cago e cagarei. Se uma outra pessoa, entrando, nota isso e acha graça, pena dela em sua prisão. Senti uma superioridade sem tamanho por ver que, quem acha isso algo anormal e digno de dedos apontados ou comentários porque outro cagou e costuma não beber perfume para que se solte aroma campestre pelo cu, tem a vida tão limitada e cheia de conceitos idiotas (mais uma vez, repito: quem não caga?) que não consegue enxergar a simplicidade e naturalidade de atos que não possuem como não sê-los daquela forma.
Senti-me realmente bem. Quebrei uma barreira e conquistei para mim um direito embora ninguém tenha colocado um aviso sobre o vaso dizendo ser permitido apenas xixi ou troca de absorvente. Porém, invisivelmente, deixar rastro de que satisfez o outro tipo, expõe-no a sanções.
Então, mulherada, comecemos a lutar pelos direitos mais básicos. Para firmarmos comecemos com pequenos atos imperceptíveis em sua grandeza no nosso dia-a-dia. É natural ser mulher e possuir direitos. É natural cagar tranquila.