A idéia veio de supetão. De inopino. Esbarrara na nova palavra desconhecida. Guardou-a para utilizá-la em momentos assim: como aquela caixinha com um palhaço escondido e buuuu! Não ouvira falar em exercícios psicológicos nem nada. Veio. Não consegue se lembrar do porquê da aparição repentina. Enxaguou os cabelos. Limpou os resquícios do xampu sobre o corpo. Fechou, bem fechado, o chuveiro. Odiava aqueles pingos insolentes. Enxugou-se. Postou-se frente ao espelho, ainda um pouco embaçado por conta do vapor. Assim, nua. Aos poucos, sua imagem foi ficando mais nítida conforme o desembaço. Seus olhos fixos em cada centímetro ao quadrado da imagem. As pintas. Contornos. Marcas. Olhos. E, com eles fixos na imagem deles, deu início à tarefa. Palavras, julgamentos, certezas... Todo o conteúdo do seu manual particular de sobrevivência posto para fora em ondas sonoras. Baseadas nele - mão sobre a capa, "Eu juro por essas convicções que me guiam..." - já proferiu muitas sentenças, sem chances de defesa ao réu. Implacável. Infalível. Sua imagem se destacava entre os presentes. Com toda a pompa e voz incisivamente sábia, sentia-se superior a todos. E a ela mesma. Farsa vendida para os outros e para si. As palavras saíam de sua boca. Nua. Nuas. Batiam na superfície. Batiam na sua imagem. E, como se possuíssem mãos, misturaram as tintas ainda frescas. A pintura não havia sido concluída. Um grande e indefinido borrão. Não era mais possível reconhecer sua imagem. As verdades - boas para os demais e para o seu reflexo, mas nunca colocadas na prática pela pessoa real - a transformaram num grande borrão.
Calou-se.
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