Aê, vamos nos sentar aqui! Sim, sim... aqui na rua mesmo. No meio-fio. Passa-me a garrafa. Sempre achei meio charmoso bebida enrolada num saco plástico, já que não existem mais aqueles sacos de papel para embalagem. E aí, o que me conta de novo? Ou de velho mesmo. Falar sobre o antigo puxa revisões. Revisar pode ser algo interessante e revelador. Eu vivo me revisando. Às vezes, vejo que o sujeito não combina com o predicado... ou pus uma vírgula donde não deveria (fracasso até com os ponto-final)... acrescentei advérbios demais, dificultando a compreensão... parágrafos longos em demasia... frases dúbias...
Dê cá mais um gole. Preciso liberar o Mr. Hyde. Não deveria apelar para a bebida a fim de soltá-lo. Mas, admito, assim fica mais fácil. Posso ser quem eu realmente sou com a mente aguçada. Não digo adormecida, pois ela sempre está a fumegar. Tem coisas que digo ou faço, quando meu anjinho filha-da-puta se cala, jogado num canto. Deixo o diabinho assumir o controle e dar descanço que a minha alma e corpo tanto pedem. E o descanço provém exatamente da exaustão. Elevar todos os sentidos e sentimentos. Sentir-se perdida dentre eles, procurando, de alguma forma, por ordem no galinheiro. Isso me faz andar. Progredir. Revisar.
Mais um gole.
Hipérboles. Gosto delas. Exagero intencionalmente na idéia que tento expressar. É minha pitada de cor à tela branca. Acentuo dramaticamente aquilo que ero dizer, deixando transparecer uma imagem ampliada do real. Isso não é enganar. Não me entenda assim. Isso é tornar a realidade mais interessante, fazendo-me, que Thor queira, apaixonar-me por ela.
Mais um gole.
Reviso-me para acentuar, concluo, meus erros. Eles é que me fazem.
Burrrrp!
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