Pois então, Sócrates, mesmo podendo escapar - seus amigos planejaram uma fuga que tinha tudo para dar certo - não escapou. Fugir da pena capital seria o mesmo que se contradizer. Chocar-se com o que acreditava piamente e espalhava aos quatro ventos. Afinal, não propagandeava ele ser a alma imortal? E a alma não era a alma do negócio? Era o que realmente importava no ser-humano? Não tinha ele medo então, pois, em síntese, era imortal. Não temeria a morte e beberia seu vinho com sicuta numa boa. Gut-gut-gut. Lá se foi o sábio filósofo, que só sabia que nada sabia. Besta ele, poderão condená-lo num julgamento póstumo. Bom... ainda estou muito presa à vida para achar que é um simples ato desfazer-se dela. Ainda quero chupar mais desta laranja. Porém, admiro o ato. A plena convicção de suas idéias e fincar o pé nelas. Daqui eu não saio e ninguém me tira. Entregar-se a uma causa e não abandoná-la sob ameaça alguma. E, mesmo esta pessoa acá não acreditando em alma e afins, dou meu braço a torcer sobre a imortalidade. De certa forma, Sócrates tornou-se imortal. Há tanto tempo, seus pensamentos são transmitidos com eficácia, fazendo brotar matutações. A imortalidade não só alcança os coroados pela História. Pessoas comuns também podem se tornar imortais. Meu avô... Inesperadamente, se foi em 2000. Certo dia, descansando meus ossos sobre o sofá, assistindo a mais uma peripécia do pequeno, esperando o mais velho chegar do futsal para me contar sobre o treino do dia, imaginei Seu Levy. O que ele acharia das travessuras do Ian? Riria, creio. Ele achava graça quando criança aprontava. Talvez fosse a algum treino do Guilherme, que acabou honrando a tradição familiar, transmitida por meu avô às filhas e das filhas, aos netos, de ser botafoguense. Então, veio à tona a conclusão de que não há uma semana sequer que eu não pense no vô. No que ele diria... na bronca... no riso... no churrasquinho de domingo... no banco do quintal... Nele. Meu avô.
Isso, pra mim, é ser imortal.
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