segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eu mijo, tu mijas, ele mija... Mijamos nós!

O nome dela era Neide. Dona Neide, como eu a chamava. Tenho mania de, logo após uma certa intimidade, colocar à frente dos nomes, Dono, Dona, Senhor, Senhora. Pessoa excepcional. Morava em uma chácara fracionada em pequenos lotes a preços populares para, se deus quiser, "ter sua própria casinha". A Dona Neide ainda não tinha não. "Sua própria casinha" era dos seus sogros. Construíram às duras penas um cantinho para o seu filho morar. Recém juntado, a moça já vinha com uma filha na bagagem, o emprego de açougueiro não lhe rendia o suficiente. Família é para dar uma mãozinha, muito embora ela goste de lhe tacar na cara, essa mãozinha. Tabefe.
Conversávamos muito. Aliás, única mulher além de mim naquele ambiente de trabalho. Era a copeira e faxineira. Aliás, motivo de muitas rebeliões, pois fora contratada para realizar só um dos ofícios, contudo coava o café.
Tantas confissões superficiais até se chegar às mais interessantes. Afinal, primeiro a gente alisa para depois penetrar em territórios mais profundos, não? Pois bem. Eu dizia alguma coisa para ela, coisa provavelmente trancada (pero no mucho) a sete chaves. "Pois é, eu cheguei a ter um lancezinho com o fulano ali. Trabalhamos juntos na sede. Quem diria que ele viria para cá? E eu, a chefa?" Ríamos da sem-graceza do rapaz quando lá chegou, tempos depois d'eu tê-lo mandado tomar no cu. Literalmente. E então, ela retribuiu à xícara de açúcar dada: "Eu já fui à feira da Piriquita."
Feira da Piriquita é um território onde se vende tudo: beijos... boca... peitos... cu... buceta... Vários tipos e modelos, ao gosto do freguês. "Mesmo, Neide? Como é? Eu tenho uma curiosidade em saber como são esses lugares", "Não... Eu estava na maior dificuldade, precisando urgente de grana, uma amiga minha falou sobre, trabalhava lá, eu fiz programa uma vez... só uma vez... mas não gostei não... saí...".
Ah, Dona Neide! Não era preciso frisar tanto ter sido uma única vez, como se, caso eu reavaliasse meu conceito sobre ela, após a confissão, ter sido uma única vez seria usado em sua defesa. Merecia ser perdoada. Eu, na maior dificuldade, precisando urgente de uma grana, uma amiga minha me falou sobre um empréstimo no banco onde tenho uma conta. E, o que é uma grande foda, Neide, em sessenta vezes.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Não sei se já contei esse episódio da minha pobre infância aqui, por estas bandas. De quando descobri a farsa sobre o bom velhinho, mais conhecido por Papai Noel. Contava eu 6 ou 7 anos, por aí. Minha idade não ultrapassara a casa das dezenas. Inocência compartilhada com várias pedrinhas colhidas à margem de rio. Era tarde. Enxugava eu a louça enquanto pentelhava a minha mãe, que estava lavando a louça. Indagava sobre a existência do senhor-pança-de-gelatina. Afinal, entregar vários presentes... milhares... em uma única noite parecia algo inacreditável, assim como o autor da façanha. Desconversando num beco sem saída, ela me contou. Larguei o pano de prato. Fui para o quarto chorar. Não existia. As noites do dia 24 assim como as manhãs do dia 25, perderam a graça. Junto no cadafalso, foi o Coelhinho da Páscoa também. De certo modo, foi minha carta de alforria. Não mais noites mal dormidas esperando os dito-cujos. E, ahááá, não mais o meu comportamento avaliado anualmente, porém em épocas distintas, pelos dois.

O tempo passa. O tempo voa.

Minhas contas de luz não saem por menos de cem pilas. Para ser sincera, por menos de duzentos. Digo ser culpa do meu filho mais velho com os seus banhos demorados. Como é adolescente... fase complicada... a grande maioria (e a grande maioria da grande maioria é homem) diz para eu deixar o moleque. Idade... hormônios... Pego carona e fico outros tantos minutos. No entanto, ele é que está em evidência. Filho... É a idade... hormônios... Não que mamãe faça o que o povo insiste em dizer que é normal que você faça (mas mamãe sabe ser intriga da oposição... nosso sacro-santo-banheiro, compartilhado por todos... não, né? Né????). A idade e os hormônios, no meu caso, agem de outra forma. Como as idéias fluem no vapor quente do chuveiro. Consigo vê-las tão nitidamente. Soluções ali, sendo esfregadas na minha cara. A coragem brota na pele para mandar o gerente do banco catar coquinho. Quer me ferrar? Ferre-me. Não vou morrer de fome. Só ficar com o nome sujo. E se sujo está, quem sabe um dia, limpo será? Bah! Enfim... numa ducha dessa, caiu sobre mim a verdade: não acredito mais em amor.

Chafurdei-me. Vasculhei-me. Virei-me ao avesso. Tudo já sentido foi cimentado por argumentos racionais. Creio que não há amor com razão, há? Não consegui visualizar, apalpar... Sinto-me incapaz de amar o amor entre seres não seus. Vi no amor já sentido, necessidades minhas. O amor era isso: necessidades tão só minhas materializadas no outro... não conseguia resolvê-las e quis porque quis que alguém as resolvesse. O amor... seria a necessidade de não enxergar suas necessidades, vivendo por alguém. Isso faz com que se esqueça de si mesmo. Foi assim para mim. E tudo teve sua lógica. Não cheguei a chorar. Senti-me livre. E triste por essa liberdade. Assim como a infância com o seu fim começando nas grandes revelações; algum outro fim se iniciou dentro de mim.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

God

O bina já me mostra quem está a me telefonar. É de casa. Não preciso dizer o texto: Procuradoria da Justiça Militar, bom dia!
- Oooiiii!
- Mãe?
- Fala Ian!
- Mãe, quero ir pra escola não.
- Mas, Ian...
- Não mãe! Não quero! A professora é chata... (começam alguns fungados, a voz fica mais trêmula, início de choro) Não. Nâo quero.
- Ian, agora o lance é outro. Você está no 1° ano. Vai aprender a ler e a escrever. Tá crescendo. Já não é mais tão criancinha.
Com um beijo e um "eu te amo muito", desliguei. Dei o assunto por encerrado.
"Já não é mais tão criancinha... Já não é mais tão criancinha... Já não é mais tão criancinha..." Senti-me péssima. Manobrando uma escavadeira, dando ré e... ups! Atropelei você?
"- Mãe, você sabe o que é imaginação?". A conversa tida durante um banho brotou na cabeça enquanto eu me sentia um bloco cinza e pesado.
- Oi, Ieda? Ian tá por aí perto?
- Tá sim. Tá jogando. Vou chamar.
- Filho?
- Ooooiiii!
- Olha só: sabe as fases do God of War que a gente já passou?
- U-hum...
- Então... não tinha umas bem fáceis? A gente não passou rapidinho?
- Sim.
- Pois é, filho... É mais ou menos assim na escola. Você passou de fase. Foi pra uma mais complicada, mas do jeito que você é fodão em video game, com certeza vai passar dessa agora. Vai vencer o chefão. E pra vencê-lo, é só não conversar com o Samuel durante a aula. É o seu poder! Enfraquece o chefão.
Escuto uma voz mais animada do outro lado:
- É mesmo! É uma fase mais difícil, né, mãe? Eu passo. Você tem orgulho de mim?
- Tenho muito orgulho de você. Você consegue, eu sei disso. Eu te amo muito!
- Eu também! Beijo... tchau!
Eu digo sempre que Deus é um grande jogador de The Sims. Dizem que eu fui feita à imagem e semelhança dele. Porém, eu jogo God of War.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chão

Nâo se encara uma palavra assim, frente à frente, conhecendo-a sob um plano apenas. Vire-a. Abra-a. Arreganhe-a. Um Kama Sutra.
Coragem. Assim, ela é necessária para grande parte do rol dos nossos atos. Não apenas para pechinchar algo faz-encher-a-boca-d'água dos seus sonhos e está ali, a poucas cifras de suas mãos. Ou, para dizer poucas e boas àquela quininha de sofá humana que insiste em machucar o dedinho do seu pé.
Ela me faltava ali. No banheiro. Debaixo d'água. Fornecendo corretamente as coordenadas para que ela me encontrasse, ali, no cantinho esquerdo do box, sentada no chão, cabeça apoiada sobre os joelhos. Ela se dabandou.
A razão a enxotou, tomando seu lugar. Paralisando-me diante fatos mais simples, retirando a cor vermelha da paisagem. A loucura... Munida dela, lançava-me do alto. Não fazia do chão, meu ponto fixo, seguro e, agora, temido.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Reflexo

A idéia veio de supetão. De inopino. Esbarrara na nova palavra desconhecida. Guardou-a para utilizá-la em momentos assim: como aquela caixinha com um palhaço escondido e buuuu! Não ouvira falar em exercícios psicológicos nem nada. Veio. Não consegue se lembrar do porquê da aparição repentina. Enxaguou os cabelos. Limpou os resquícios do xampu sobre o corpo. Fechou, bem fechado, o chuveiro. Odiava aqueles pingos insolentes. Enxugou-se. Postou-se frente ao espelho, ainda um pouco embaçado por conta do vapor. Assim, nua. Aos poucos, sua imagem foi ficando mais nítida conforme o desembaço. Seus olhos fixos em cada centímetro ao quadrado da imagem. As pintas. Contornos. Marcas. Olhos. E, com eles fixos na imagem deles, deu início à tarefa. Palavras, julgamentos, certezas... Todo o conteúdo do seu manual particular de sobrevivência posto para fora em ondas sonoras. Baseadas nele - mão sobre a capa, "Eu juro por essas convicções que me guiam..." - já proferiu muitas sentenças, sem chances de defesa ao réu. Implacável. Infalível. Sua imagem se destacava entre os presentes. Com toda a pompa e voz incisivamente sábia, sentia-se superior a todos. E a ela mesma. Farsa vendida para os outros e para si. As palavras saíam de sua boca. Nua. Nuas. Batiam na superfície. Batiam na sua imagem. E, como se possuíssem mãos, misturaram as tintas ainda frescas. A pintura não havia sido concluída. Um grande e indefinido borrão. Não era mais possível reconhecer sua imagem. As verdades - boas para os demais e para o seu reflexo, mas nunca colocadas na prática pela pessoa real - a transformaram num grande borrão.
Calou-se.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Processador

Não sabe dizer, ao certo, a partir de qual fala do explosivo discurso, seus ouvidos não mais levaram a informação ao cérebro para ser processado. Os dados de saída - velhas aulas de informática que lhe valeram, apenas, para futuras comparações - não eram encaminhados até a boca. Também soltos de forma violenta, numa disputa idiota cujo prêmio seria a ilusória sensação de ter se sobreposto ao outro. Cabeça baixa, olhos perdidos e boca entreaberta, sem soltar som algum, corresponderiam aos dois murros dados sobre o tatame indicando desistência.

Tudo girava ao seu redor. Não. Nâo que ela fosse a peça fundamental e todos a veneravam natural ou artificialmente. Um nervoso contido. Uma vontade de se jogar contra a parede. De gritar. De chorar. De sumir. Enjôo. A sua própria casa a vomitava. Ela fazia mal ao seu lar. Nada de abraços. Nem da cama. E ele ali, na sua frente, gesticulando... falando... Eu provoquei?.
"Pega o carro... Vai ao cinema... Sai... Faça alguma coisa... Mas pare de encher meu saco!".
Isso, escutou. Contudo, não houve processamento dos dados de entrada. Máquina inútil. Algo a prendia. Blocos de concreto amarrados nos pés? Nâo. Muito mais pesado. Por que não consigo? O que me impede? Por quê?.

Embora já houvesse passado por alguns momentos indigestos, ela via a vida como sua velha coleção de papéis de carta. Era moda no seu tempo de adolescência. Todos eram guardados cuidadosamente numa pasta com saquinhos plásticos. Em cada um, dois. Frente e verso. I Love You. Ursinhos Carinhosos. Betty Boop. Desenhos românticos. Cores suaves. Folhas e folhas contando uma história apenas visível à dona: seu sonho por uma vida protegida. Esse maldoso oráculo havia dito à ela, nessa época, sobre seu homem (este que está a gritar), sobre seu filhinho, sua casa cheia de rococós... Não disse muito sobre ela, é verdade.

"Tenha uma vida... vá viver..."

Talvez o conselho de ir pegar um cineminha seja para isso. Começar a viver. "Eu não estava?".
Uns trezentos papéis. Mais ou menos. Estão sobre o guarda-roupa. Vira-e-mexe, esbarra no futuro frustrado quando é dia de tirar o pó de cima dos móveis. Bebês não podem conviver com poeira. Bagunça. A visível. Aquela que há dentro de cada um, disfarça-se. Há um tapete interno para debaixo do qual, toda a sujeira é varrida. Limpa-se o rosto. Fortifica-se a voz. Dá um sorriso.

Tudo deveria sim, girar ao meu redor! Cadê minha recompensa? Meu reconhecimento? Sou peça fundamental dessa porra. Assim que soube da vinda do menino, planejei minha saída do trabalho. Filho tem que ser olhado, de perto, pela mãe. Duvido que arranjasse alguém assim... cuidadosa... Já teve a experiência, infeliz! Se eu tivesse sido como a vagabunda da mãe do seu primeiro filho. Rá! Queria ver! Fico aqui... tudo limpo... limpo... janta feita... não lhe cobro transar. Transar... Sou... Sou... Será isso? Há coisas que... Eu não sei. Somos casados. Marido. Mulher. Nâo precisa de... de... coisas. Tem o menino... quarto ao lado... Levo o lixo lá embaixo. Vejo a vizinha. Ela é só. Tem filhos. Coitada! Deve ser complicado ter uma casa só. Não teve sorte nas suas escolhas. Meu casamento foi tão lindo...
"Pega o carro..."
Banho.
Alguém do andar de cima escuta uma música. A janela de um dos quartos, em todos os apartamentos, dá para um vão. A dos banheiros também. Um suspiro, todos escutam. E o cantor diz que nada pode fazer por causa de sua mulher. Minha mulher não deixa não. Vida sempre dedicada. Transformava-se em duas, três... tudo para andar conforme o esperado. Conforme o normal. Agora, chacota.

Virei piada nacional.

Chave do carro. O pequeno ficará bem. Aviso que há janta pronta dentro da geladeira? Adiantei e coloquei tudo dentro do refrigerador para facilitar à noite. O bebê não vai morrer. Tá dificil de abrir a porta. Medo. Tenho medo. O que vou fazer?

Talvez seja para, apenas, afrontá-lo. Raiva. A bebida lhe dá coragem. Já não sabe se para futucá-lo, realmente, ou para provar a si mesma. Ou, aliviar a dor. Ou, a solidão. Não sabe. Mais uma dose. Engraçado olhar outro cara. Eu, tão... tão...

Ele se enfiou no banheiro assim que entramos. Eu, já nua... "Vá viver...". A luz foi apagada. Passos em minha direção. Um bafo quente. Não tenho coragem de ver nem desviar meu olhar para o redor.

- Já pelada?
- Come o meu cu.