O nome dela era Neide. Dona Neide, como eu a chamava. Tenho mania de, logo após uma certa intimidade, colocar à frente dos nomes, Dono, Dona, Senhor, Senhora. Pessoa excepcional. Morava em uma chácara fracionada em pequenos lotes a preços populares para, se deus quiser, "ter sua própria casinha". A Dona Neide ainda não tinha não. "Sua própria casinha" era dos seus sogros. Construíram às duras penas um cantinho para o seu filho morar. Recém juntado, a moça já vinha com uma filha na bagagem, o emprego de açougueiro não lhe rendia o suficiente. Família é para dar uma mãozinha, muito embora ela goste de lhe tacar na cara, essa mãozinha. Tabefe.
Conversávamos muito. Aliás, única mulher além de mim naquele ambiente de trabalho. Era a copeira e faxineira. Aliás, motivo de muitas rebeliões, pois fora contratada para realizar só um dos ofícios, contudo coava o café.
Tantas confissões superficiais até se chegar às mais interessantes. Afinal, primeiro a gente alisa para depois penetrar em territórios mais profundos, não? Pois bem. Eu dizia alguma coisa para ela, coisa provavelmente trancada (pero no mucho) a sete chaves. "Pois é, eu cheguei a ter um lancezinho com o fulano ali. Trabalhamos juntos na sede. Quem diria que ele viria para cá? E eu, a chefa?" Ríamos da sem-graceza do rapaz quando lá chegou, tempos depois d'eu tê-lo mandado tomar no cu. Literalmente. E então, ela retribuiu à xícara de açúcar dada: "Eu já fui à feira da Piriquita."
Feira da Piriquita é um território onde se vende tudo: beijos... boca... peitos... cu... buceta... Vários tipos e modelos, ao gosto do freguês. "Mesmo, Neide? Como é? Eu tenho uma curiosidade em saber como são esses lugares", "Não... Eu estava na maior dificuldade, precisando urgente de grana, uma amiga minha falou sobre, trabalhava lá, eu fiz programa uma vez... só uma vez... mas não gostei não... saí...".
Ah, Dona Neide! Não era preciso frisar tanto ter sido uma única vez, como se, caso eu reavaliasse meu conceito sobre ela, após a confissão, ter sido uma única vez seria usado em sua defesa. Merecia ser perdoada. Eu, na maior dificuldade, precisando urgente de uma grana, uma amiga minha me falou sobre um empréstimo no banco onde tenho uma conta. E, o que é uma grande foda, Neide, em sessenta vezes.
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