segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Otsoga

(Paul Klee)




Oh, céus! Um momento de silêncio. Tudo que anseio agora. Contudo, a voz insiste. Tento, entre bocejos, prestar atenção. Necessidades como as minhas. Ser falante como eu. E uma das válvulas de escape à alma é falar. Um dos.


Foi-se. Com um peso de consciência, agradeço o girar dos ponteiros. Agora eu e vocês: mãos, teclado, tela, massa cinzenta. Minha tão desgastada válvula. Uma das.
Paul Klee. Um dos (sim, estou na minha fase "um dos"... "uma das") meus artistas prediletos. Tenho um desenho dele tatuado no antebraço esquerdo. Uma caricatura (ele é muito bom nisso) de anjo. Se reparar bem e a sua sensibilidade o permitir, verá que as asas do anjo se assemelham a dois chifres. Assim o assimilei e gostei. Talvez não tenha sido essa a intenção do artista ao retratar o ser angélico, acentuando exageradamente algumas características dele. Contudo, com uma pitada do meu momento e visão sobre tudo e todos, fiz ressaltar aos meus olhos o lado dúbio dele. Ele e não-ele, nele. Bondade com traços de maldade. O inverso também vale. Assim como eu. E do mesmo modo, muitas coisas se processam assim nesta pacata vida terrestre (nem tão pacata assim).
E sobre esse trilho, caminha a morte também. Interessante isso. Caboclo só se faz lembrado quando bate as canelas. Mesmo que durante um lapso pequeno de tempo, mas sua presença, que era insípida, inodora e incolor para muitos, torna-se forte e repleta de significados quando já não se pode contar com ele fisicamente. Aquilo que se buscou durante boa parte do ciclo vital, só é alcançado com o natural, provocado ou não, desfecho destinado a todos. Ser reconhecido... pensado... lembrado... Não há como escapar do "o melhor, está no fim?".
Bão, não dá para escapar da vida.
Eu lembrei hoje, enquanto fumava cá sentada frente ao prédio onde faço-me ser incluída nas pesquisas econômicas, do Homem-Pássaro. Mergulhou, andares abaixo, no piso de cimento. Fez-se lembrado por alguns que nem o conheciam. Relembrado pelos anônimos... que nem sabiam de sua história, tampouco da dor com que a encenava. Apenas procuravam um lugar não-proibido para fumar, ou deixar os pensamentos flutuarem perante seus olhos. Forçados a conclusões apavorantes por conta da triste cena.
Por isso, por vezes, evito o contato social. Você acaba sendo forçado a pensar e agir contra você mesmo.
Eu e não-eu, em mim.












Nenhum comentário:

Postar um comentário