Ao lado, impressionou-me uma criança com, mais ou menos, o tempo de vida do meu caçula. Imagem de criança sempre me impressiona. Não sei se isso ficou mais aguçado após eu ter pegado a causa materna para defender (também). Bom, impressiona-me, mas não o suficiente para eu sacar a moedinha e entregar ao filhodaputa que o pôs no mundo. Estava só, menino ou menina (não consegui identificar entre a sujeira e maltrapilho), à beira da pista movimentada. Virei o rosto, numa tentativa burra de tirar incômoda cena do meu campo de visão e daí: zás! O problema deixa de existir. Contemplei o semáforo vermelho, porém com a imagem infantil em mente, agora acrescida da figura materna. Mãe também vestida com a sujeira e maltrapilho. Enganchada a sua cintura, outra criança. Bebê ainda. O sinal esverdeou, bem na hora em que ela se aproximava da minha janela, sempre aberta, pois nesta minha redoma de vidro móvel não há ar-condicionado. Mal iniciara a gesticular, engatei a primeira, pois assim me exigia o momento verde. Agradeci a saída pela tangente. Mesmo que raramente dê algum tostão no semáforo, incomoda-me dizer que não tenho, tendo. A miséria parece criar uma obrigação de dar. Não acredito, sinceramente, que fornecendo esmolas eu vá contribuir com a diminuição da pobreza. Vou fomentá-la ainda mais. Não pago impostos? E, bom, a população cresce em progressão geométrica enquanto a produção de alimentos, arimeticamente. Não estou pouco me fodendo à questão, adianto. Minhas soluções e aqueles os quais, investidos de mandato político, também chegaram às mesmas, são veementemente criticados pela Igreja e seus seguidores diversos. Então, que vão as escolas cristãs, os templos, as igrejas, acolherem. Enfim... antes mesmo de me pedir, balancei negativamente a cabeça. Escutei um "Deus a abençoe!". Como?
Na verdade, isso soou aos meus ouvidos mais como uma praga irônica. Deus me abençoe... àquela que nada ajudou o seu semelhante. Se eu pudesse responder, diria: ou "Já estou amaldiçoada, senhora. Desde que pus meus pés neste mundo, estou fadada a viver morrendo dia-após-dia!". Ou: "Talvez a senhora precise de mais bênção que eu!".
Para não dizer que não sou flor, houve um traço de compaixão por minha parte tempos atrás. No supermercado, veio uma moça - também acompanhada por criança - pedir-me para pagar um saco de arroz. Paguei. "Deus te ajude!". "Não, minha senhora. Não preciso Dele. Ele deve ajudar a você!". Quase ela recusou o pacote pago, vendo em mim a figura do diabo. Mas não é vero? Ou será que Ele só ajuda aquele que não precisa tanto de sua intervenção divina? Ahhhh, mas assim, a tarefa divina fica mamão com açúcar, não?
Ixpiertinho!
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