domingo, 13 de janeiro de 2008

Pantagruélico


Mesmo ciente de que não me faz bem, entreguei-me de boca e alma ao pecado da gula. Faz-me mal, não por conta da consciência pesada por ter ultrapassado o limite do razoável... da satisfação. Aliás, saber qual é esse ponto, o do "estou satisfeita" (então paro), torna-se um tanto complicado quando a exaustão (na falta de uma palavra melhor que conceitue o estado "ai, tô lotada") é a linha de chegada. Assim, o ponto politicamente aceitável está um tanto distante daquele que me impus. E peco. Isso vale para todos os atos pecaminosos que pratico. A única desvantagem de habitar algum círculo subterrâneo é o imenso calor ao qual submete-se o pecador. Segundo Dante, há, porém, o círculo do gelo. Mas gelo queima também.


Rodei e não expliquei: meu organismo reage mal à comilança. Fico lenta. Pareço transpirar a gordura ingerida. Sim, porque não haveria de me entupir de folhas, flores e frutos. Deposito minha esperança num copo de coca ao qual meu cérebro interpreta como sendo um legítimo Diabo Verde. Desentope tudo que está obstruído.


Tão bom quando filho começa a entender bem a gente. Meu quadro de escravos está sendo renovado. O mais velho, na porta da adolescência, arrisca-se a negar, ou argumentar, meus pedidos: um copo de coca, minha toalha que esqueci no quarto, procurar o controle remoto pra mamãe. Porém, carrego comigo herança transmitida geneticamente e cultura adquirida: a velha e boa e eficiente chantagem emocional. "- Poxa, Batata, mamãe tá tão cansada! Trabalho tanto... procuro ser tão legal contigo...". Nojento isso, admito. "- Iaaaan, leva joga este papel pro lixo pra mamãe!". E lá vai o pequeno, todo solícito e feliz, sem retrucar (por enquanto).


Privar algum órgão do sentido de captar sensações exteriores, aguça os demais. Eles ficam mais sensíveis e eficazes, eu li. E não existem somente aqueles que conhecemos: visão, audição, tato, olfato e paladar. Há mais sentidos entre o céu e a terra, do que aqueles cinco que julga a nossa vã filosofia. Captamos o que nos cerca, usando outros instrumentos também. A pele, por exemplo. Quando se vai ao cinema pela primeira vez com a presa pretendida e, ops, o braços se tocam, não sobe um arrepio? Bom, em mim, sim. Há algum tempo, li um conto de Guy de Maupassant. Creio já ter comentado sobre em algum blog finado, mas nesse texto, ele argumenta que deve haver coisas que nos cercam mas não as sentimos (ou sentimos, daí explicam-se os calafrios). Nada de cair no poço da religiosidade para explicar. Pega-se a ciência: é comprovado que determinadas freqüências sonoras, nossos ouvidos não escutam. Que algumas cores, alguns colegas do Reino Animal não enxergam. E por que dizer que nós, humanos, enxergaríamos tudo? Pode existir algo que nossos olhos não vêem...


Amarrem-me!!! Quero testar minhas percepções!


Papo mais break on through, to the other side!


Agitemos a coca-cola, então!

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