Acordei com vontade de escrever um livro. Idéias aparecem aos borbotões. Um papo captado no metrô. Uma observação feita no trânsito. Uma olhada com olhos do Superman na moça que anda mancando e ao que pude observar, por causa dos sapatos novos comprados sob o desejo de se tornar mais sexy. Aliás, por que é sexy apoiar-se sobre os pobres cinco dedos dos pés e parte da sola? Sou uma pessoa que preza muito o conforto desde que inventou, lá no segundo grau, ir a uma aula, num pleno sábado, calçada com modelito novo, mas detonador de pés. Liguei pra casa, pedindo pelamordedeus para alguém levar chinelos. Não falam que não há nada mais pauendurecedor que uma mulher que acaba de sair do banho, enrolada numa toalha e com os cabelos molhados (lá vem eles, cabelos...)? Então, banho é um dos momentos mais relax do dia. Assim, quem acaba de sair, de certa forma, está se sentindo confortável. Assim, ponto pra confortabilidade. Sentir-se confortável é suuuuuperséquissi! Mas não é sobre isso que quero escrever...
Meu livro. Sobre quem? Sobre ele? Ela? Tu? Eu???? Baseado em mim, então. Não que a heroína vá se chamar Maura, mas algumas experiências dela serão retrato das minhas. A ficção traduz a realidade. Matuto. Que experiência marcante vou retratar? A perda da virgindade? Ah, clichê demais! Além do que, bom, a única sensação que me vem, quando lembro do inevitável dia, foi sair do local do crime com a nítida impressão que alguém havia esquecido algo dentre as minhas pernas, se é que vocês me entendem. Não digo que deveria ter esperado mais pois, na época em que aconteceu, ainda tive tempo de consertar as coisas e não mais ficar cismada de que estavam reparando o meu modo esquisito de andar depois do ato. Levou uns 10 anos. Imagine se tivesse sido mais tarde? E mais dez anos trabalhando na superação? Foi válido matar a Inês o quanto antes.
Uma ressalva: não entendam ser o coadjuvante bem guarnecido.
Bom, as outras lembranças.
Murchei. A vida é tão comum. Corriqueira. Simples.
E pensar nela, no nascer-crescer-reproduzir-envelhecer-morrer (não, necessariamente, obedecendo rigorosamente a ordem), veio à tona um inquérito que li.
Ele acordou decidido. Leu trechos prediletos da Bíblia. Deu conselhos ao irmão. Um beijo na mãe. E saiu. A mãe, achou estranho ele resolver sair, assim, de súbito. Nunca foi de farra noturna. Sempre foi um rapaz caseiro, ajuizado e de Deus. O pai passa mais tempo fora, no trabalho, que em casa. Não tem muito a dizer sobre o filho. Sobre os filhos. O caçula, meses atrás, tomou veneno para rato. A mãe diz que foi por engano. Ele tem, desde pequeno, a mania de misturar alpiste no arroz-e-feijão. Pegou por engano o veneno e foram longos e sufocantes dias no hospital. Isso mexeu sobremaneira o irmão mais velho. O pai nada soube mais profundamente. Estava fora. A mãe retribuiu o beijo e recomendou cuidado. A noite era perigosa, ainda mais onde moravam. Saiu. Sentiu-se cheio de vida. Hoje, aliás, ele a usaria intensamente. Encontrou os amigos. Bebeu. Fumou. Aspirou ao pó branco. A vida tão ansiada correndo violentamente dentro das veias. Andou de moto. Cutucou a morte. Pagou para usar o corpo de uma mulher. Voltou pra casa com confusas imagens gravadas na cabeça. Estava feliz. Acordou. Foi pro trabalho. Contou pros amigos as aventuras da noite anterior. Disse aos ouvidos desatentos que aproveitara a vida ao máximo. E ainda avisou que outra coisa grandiosa estava por vir. Que a partir daquele dia, tudo seria diferente. Ele marcaria aquela data para sempre. Seguiu para a guarita. Pegou a arma. Engatilhou-a. Apontou para a cabeça. No inquérito, testemunha alguma depôs sem utilitar o “eu acho”. Nenhuma certeza sobre o moço. Nenhuma transcrição fiel do que havia falado. Ninguém sabia dele ao certo. Nem amigos. Nem irmão. Nem mãe. Muito menos o pai.
De tudo e de todos, talvez eu, que não lembro do seu nome, tenha me envolvido mais com a sua estória. E tenha marcado somente a mim. A vida tão comum... corriqueira... simples...
Vá ver, sermos ratinhos de laboratório seja um modo de nos protegermos de nós mesmos.
E eu corro, satisfeita e serelepe, dentro da minha rodinha de ferro.
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