segunda-feira, 8 de julho de 2013

Bueiro

A surpresa revelada pelo caixão aberto, definitivamente, foi maior à notícia de sua morte. Para muitos, assim que chegaram, tudo não passava de uma brincadeira sem-graça, muito embora fosse racionalmente concluído que ninguém gastaria tanto dinheiro por nada. Enterros são caros. A outros, melhor não pensar e seguir protocolo. Enterro, em pleno sábado, não era digno de reflexões maiores. Segue-se o cortejo. A quem se mostrava solícito, perguntas foram feitas. Mas, como isso aconteceu? Por quê? Alguém viu? O pouco sabido foi revelado entre uma confusão de possíveis causas. No fundo, ninguém sabia o que ocorrera de fato. Apenas sabiam que ele não mais estava ali. Nem aqui. Nem em lugar algum. Para onde foi? Dentro da caixa de madeira, com seus arabescos talhados numa superfície cor tabaco e confortavelmente forrado de cetim, estavam disposta a última roupa usada por ele e seus sapatos. Os vermelhos. Gastos. Eram os prediletos pois não os faziam doer seus pés. Camisa, calça, meias e sapatos colocados como se houvesse um corpo recheando-os. Tomaram o cuidado de também por a cueca e meias. Onde estaria ele? Estava desacompanhado no momento, falaram. Retornava para casa depois de 8 horas exaustivas, sem nada fazer, a não ser fingir que trabalhava. Os hábitos ajudavam-lhe a preencher outros ciclos de 60 minutos até o cair na cama. E assim foi, contando com essa ajuda, que passou à padaria para comprar seu jantar. Saiu, sem nada dizer. Há muito entrava e saía carregando 2 pães. Isso não o obrigava a puxar conversa com o caixa ou atendente. Isso não lhes daria o direito de escutar o seu "Boa noite, como vai a família?". Contudo, apenas uma dessas pessoas testemunhou o que aconteceu. Apavorado, viu e nada pode fazer, a não ser entrar e engolir a cena gravada em sua alma. Dizem que ele revelou a apenas à atendente, durante um encontro às escondidas naquele mesmo dia. Foi o suficiente para mais gente saber e, assim, apresentar alguma explicação aos que foram se lamentar em público. Chovia, como há muito não pingava. Com o pacote derretendo em suas mãos, suspirou. Não guardou seus óculos e com eles, virou o rosto para o céu. Os pingos batiam nas lentes com uma certa violência e violentas também batiam em seu corpo. Ficou parado. A água mais forte. Tão boba e forte. O moço estranhou o fato daquele homem não correr, como fariam todos, e se esconder. Parecia que o homem estava ali, enfrentando a chuva, dizendo a ela ser mais forte. Não era luta travada, era rendição. Aos poucos, foi derretendo. Contrariando a lógica, seus pés foram primeiro para, ao fim, irem seus olhos, não deixando carne alguma para contemplação daqueles que correm. E se escondem.

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