domingo, 12 de agosto de 2012

Para mim, para você, para nós.

Maura não deveria contar com mais de 6 anos, pois aos 7, mãe, pai e os 2 filhos estavam em terras mineiras. Certamente, seria uma data importante para a ausência ser tão dolorosamente sentida. A lembrança do dia, qual era, não é totalmente confiável, contudo tudo leva a crer se tratar do segundo domingo de agosto. 
Era costume dormir, vez ou outra, na casa da tia que morava em Cruzeiro Velho. Apesar da falta apertada da mãe e irmão que ficaram em casa, a casa da tia sempre era uma tentação. Lá estavam os primos, brincadeiras, árvores com cipós (ela sempre empacava no primeiro galho, perguntando-se por que havia inventado de subir, atrás da prima. "E agora, como desço?", tremia). Era muito divertido. E naquela noite, em especial, além da mãe e irmão estarem longe, mais longe estaria o pai. Aquela noite a ausência dele doía. O momento era de todos os filhos ficarem com seus pais, dando-lhes aquele desenho feito com tanto orgulho... ou a lembrancinha de escola... alguma coisa qualquer que simbolizasse a importância daquela pessoa para aquela outra pessoa. O tio virou e disse: "Então, já que o seu pai está longe, faz de conta, hoje, que sou seu pai, tá?". As lágrimas secaram. Pôs nele, a figura paterna, como se ali enxergasse seu pai, para que, depois, pudesse abraçá-lo... quando quilômetros e quilômetros de distância fossem percorridos.

Essa lembrança veio forte e involuntária a minha cachola. Plim! Tudo veio à tona. 

De certa forma, eu achava, até há pouco tempo, ser um exagero o discurso família que o meu irmão pregava. Proximidade não mediria amor e importância sentidos por uns a respeito de outros. Eu me mantinha distante, amando-os. Esse era o meu jeito. Pieguice tal qual, eram as comemorações de dias especias. O da mãe, o do pai, o das crianças... 

Até há pouco tempo, eu achava que tinha direitos acima de tudo. Direito a me divertir como bem quisesse. Direito a ter segunda, terceira, quarta e quantas forem chances. Dedicava-me ao que realmente importa superficialmente. Um brinquedo ali. Uma saidinha acolá. Uma preocupação acá. Sobre mim, o foco principal. Não poderia passar pela vida sendo apenas mãe. Eu me mantinha distante, deixando de me amar.

Na vida, é preciso pegar a situação e virá-la de ponta-cabeça para enxergarmos e senti-la de várias formas. Dentro delas, há uma dentro da qual se encaixe confortavelmente. Depois da vinda dos meus três homens, burrice pensar que poderia fazer o que bem entendesse comigo. Não posso. Sou deles. Essa constatação não me assusta mais. Assustava e muito. A liberdade indo embora. Pois que vá, embora ela, realmente, não exista tenho você filho ou não. O retorno do amor que dedico a eles vale mais. 

Meu irmão tinha toda a razão. Quando todos juntos, é uma sensação maravilhosa enxergarmos sendo uma corrente. Cada um de nós, um elo. Vi a tempo e não levarei comigo a amarga sensação de ter deixado o trem partir.

Pouco tempo depois, na mesma época, Maura não chorou a ausência. Ela pode viver os melhores momentos de sua vida ao lado de um pai. Ali, entre as montanhas, seguindo trilho abandonado de trem, soltando pipa, vendo-o matar aranhas com tochas... ali era um pai. Algum tempo depois, voltaram para Brasília. Os quatro. Mais algum tempo depois, ela voltou a sofrer pela distância. E não poderia contar com o tio para tomar emprestado o papel, pois não havia mais quilômetros e quilômetros separando pai e filha. Estavam lado a lado. Ele havia perdido o trem.


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