sábado, 31 de janeiro de 2009

Andar sem fé eu vou.

Fiz as pazes com eles forçosamente. Impossível abrir os olhos e não vê-los ali. Brancos. Finos. Meio tortos. Protagonistas dos sonhos dignos a uma análise mais profunda: não me incomoda me descobrir, do nada, nua diante pessoas; mas sim, vê-los sem proteção alguma.

Meus pés.

Abria os olhos, logo cedo, lá estavam eles. Tentava não pensar, assistindo a algum programa na tevê, lá estavam eles logo abaixo da tela. Sendo vedado pela dor, algum movimento mais brusco, minhas retinas os captavam para eu me sentir bípede de novo. Meus pés. Embora eu não pudesse usá-los durante um tempo, não foram esquecidos. Ao contrário, fizeram sua existência ainda mais presente e marcante. E como a dor e o belo andam de mãos dadas, comecei a vê-los bonitos por conta de suas imperfeições. Brancos. Finos. Meio tortos.

Quando perguntada como era eu na infância, Dona Rita logo respondia: " - Uma criança sem igual. Terminava o dia com os pés limpinhos... branquinhos...". Isso sempre me incomodou. A limpeza não me soava bem aos ouvidos. A mim, era sinônimo de medo. Eu tinha medo das possíveis consequências. A vontade de subir na árvora era grande, mas lá em cima chegando, como desceria? E eles se mantinham limpos.

Meus pés.

Forçada a vê-los sempre que abria os olhos, fui aprendendo a gostá-los. Não porque, justamente naquele momento, eles me fariam sentir a falta deles. Fui obrigada a tê-los constantemente no meu campo de visão e isso fez com que eu não apenas os aceitasse, mas os considerasse uma parte simbólica e importante de mim.

Talvez até um projeto para um futuro imediato: sujá-los.

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