segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Filosofia do ovo colorido

Apesar do desejo de passar 1000 anos dormindo e, quiçá, não chutaria o fê-dê-pê do príncipe que viesse me acordar, dormir por um longo período não me faz bem. O meio. O meio termo. Merda de meio termo! E essa porquêra é com hífen ou sem hífen? Dormir pouco me fere a alma. E passar um longo tempo com as pestanas cerradas também não me cai bem. Soma-se e divida por dois: é o ideal. Ideal... o que é ideal? Minha visão hoje está meio turva: não capto devidamente as palavras. Elas me parecem a lua: há um campo escuro não visível a todos.
Meu irmão ligou. Que bom! Isso significa que a sua raiva em relação a mim já passou um pouco. Apesar do tempo estar nos separando, ele me faz muita falta. Vontade de cutucá-lo, perto das 12 badaladas noturnas, e propor para que vejamos a fauna. Camisa do pijama, casaco, calça e tênis. Íamos os dois, andando pela rua, com uma garrafinha de cerveja em punho, imaginando como seriam as nossas vidas quando adultos. Posso lhe responder agora com mais exatidão, Davi: nós, adultos, não somos nada daquilo que imaginávamos. Talvez não assistamos, como planejamos entre um gole e outro, os clipes de nossa época, aboletados no sofá, vendo os filhos passarem de um lado para o outro, dizendo "Já vou!", ou "Dá pra me arrumar algum?", ou, para afundarmos ainda mais na nossa triste nostalgia, "Cara, isso é velho, hein?". Talvez seja pretensão humana imaginar que seríamos tão diferentes do restante dos bichos. Aprendemos a voar e o ninho já não existe mais. Hoje, imagino que sejamos lembranças boas e doloridas lá na frente. E tenho esperança de que, tal como vislumbrei durante as nossas caminhadas noturnas, eu esteja errada.
Logo após, empolgada com o contato fraternal, telefonei para minha mãe. Pela primeira vez, precisei pensar em assuntos para não ter que desligar logo o telefone. Queria - e precisava - conversar mais. O ninho... Não há, Maura, não há.
Ligo para casa. Sem muita paciência para espichar prosa com a Ieda - não, hoje não... não quero saber se fulano não leva a louça suja pra pia... se está bagunçada a casa... se o Ian não comeu direito... Hoje, não - procuro pela minha prima que lá está. Talvez me entenda um pouco mais ou me diga algo que eu queira escutar. Sim, neste dia, procurava eu palavras que me fossem apropriadas ao momento. Que fizessem ponte entre alguma coisa encalacrada cá dentro e o exterior. Acabamos nos pontos negativos da vida. E solto algo semelhante a "o que seria do branco se não fosse o preto?". Se na existência, só fatos bons acontecessem, como identificá-los dessa forma, já que não saberíamos que o bom é bom, pois não haveria o ruim para contrapô-lo? Filosofia de buteco. E buteco do mais sem-vergonha. Daqueles com ovos coloridos para tira-gosto.
Inauguro a Filosofia do ovo colorido.

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