Deixei o relatório descansar um
pouco, restavam apenas, uns pequenos ajustes. Fui atender as roupas que estavam
há horas dentro da máquina, abafadas e nem úmidas, a secura do clima já se
encarregara de secá-las. Porém, cumprindo protocolos, fui estendê-las no varal.
Algumas ficaram amassadas, já que secaram; outras ainda dão para usar sem
passar o ferro. Sinceramente, ambas serão usadas sem consumo elétrico.
Hoje, eu estava à la Pollyanna (é
assim mesmo a grafia do nome da personagem?). Não reclamei nem bufei ao
estender as roupas. Fiz com calma e com todo o requinte de uma pessoa com
manias. Camisetas nos cabides, mas separadas entre si conforme os donos. Grupos.
Grupo de um. Grupo de outro. E separados entre si com um pregador diferente.
Assim, facilita para quem for apanhar. O mesmo acontece com calcinhas e cuecas,
só que sem cabides. Meias, só em par.
E assim, fui conduzindo minha
cerimônia. Escutando os pássaros se arrumarem para dormir.
Há dias, sinto algo diferente no
ar. Adoro ter esse dom: sentir algo diferente do ar. O tempo mudando. Algo
estranho. Por vezes, quando comento sobre, as pessoas dizem ser impressão. Não
para mim. É batata! Algo muda mesmo.
Ele veio, dizendo não ser engano
não. Tem tempo que o espero. Já estava na hora de ouvir seu canto. Ainda não
está forte o coro. Mais alguns devem estar chegando. Tão lindo, o canto do
Sabiá!
Pode ser brega ou forçar a barra
zen-chato, mas amo ter esse dom. E nos últimos meses, tenho aprendido exercitá-lo
por questões de sobrevivência, de saúde mental. Fiquei ali, balde vazio, roupa
estendida, escutando tudo, sem vozes. De humano, só as roupas secando mesmo. Eu
fui me aninhar nos galhos para escutar melhor o mundo.


