segunda-feira, 23 de maio de 2011

Não sei se já contei esse episódio da minha pobre infância aqui, por estas bandas. De quando descobri a farsa sobre o bom velhinho, mais conhecido por Papai Noel. Contava eu 6 ou 7 anos, por aí. Minha idade não ultrapassara a casa das dezenas. Inocência compartilhada com várias pedrinhas colhidas à margem de rio. Era tarde. Enxugava eu a louça enquanto pentelhava a minha mãe, que estava lavando a louça. Indagava sobre a existência do senhor-pança-de-gelatina. Afinal, entregar vários presentes... milhares... em uma única noite parecia algo inacreditável, assim como o autor da façanha. Desconversando num beco sem saída, ela me contou. Larguei o pano de prato. Fui para o quarto chorar. Não existia. As noites do dia 24 assim como as manhãs do dia 25, perderam a graça. Junto no cadafalso, foi o Coelhinho da Páscoa também. De certo modo, foi minha carta de alforria. Não mais noites mal dormidas esperando os dito-cujos. E, ahááá, não mais o meu comportamento avaliado anualmente, porém em épocas distintas, pelos dois.

O tempo passa. O tempo voa.

Minhas contas de luz não saem por menos de cem pilas. Para ser sincera, por menos de duzentos. Digo ser culpa do meu filho mais velho com os seus banhos demorados. Como é adolescente... fase complicada... a grande maioria (e a grande maioria da grande maioria é homem) diz para eu deixar o moleque. Idade... hormônios... Pego carona e fico outros tantos minutos. No entanto, ele é que está em evidência. Filho... É a idade... hormônios... Não que mamãe faça o que o povo insiste em dizer que é normal que você faça (mas mamãe sabe ser intriga da oposição... nosso sacro-santo-banheiro, compartilhado por todos... não, né? Né????). A idade e os hormônios, no meu caso, agem de outra forma. Como as idéias fluem no vapor quente do chuveiro. Consigo vê-las tão nitidamente. Soluções ali, sendo esfregadas na minha cara. A coragem brota na pele para mandar o gerente do banco catar coquinho. Quer me ferrar? Ferre-me. Não vou morrer de fome. Só ficar com o nome sujo. E se sujo está, quem sabe um dia, limpo será? Bah! Enfim... numa ducha dessa, caiu sobre mim a verdade: não acredito mais em amor.

Chafurdei-me. Vasculhei-me. Virei-me ao avesso. Tudo já sentido foi cimentado por argumentos racionais. Creio que não há amor com razão, há? Não consegui visualizar, apalpar... Sinto-me incapaz de amar o amor entre seres não seus. Vi no amor já sentido, necessidades minhas. O amor era isso: necessidades tão só minhas materializadas no outro... não conseguia resolvê-las e quis porque quis que alguém as resolvesse. O amor... seria a necessidade de não enxergar suas necessidades, vivendo por alguém. Isso faz com que se esqueça de si mesmo. Foi assim para mim. E tudo teve sua lógica. Não cheguei a chorar. Senti-me livre. E triste por essa liberdade. Assim como a infância com o seu fim começando nas grandes revelações; algum outro fim se iniciou dentro de mim.