segunda-feira, 27 de julho de 2009

Bagaço da laranja

Vamos espremer! Taí, espremer... verbinho legal. Soa-me bem aos ouvidos. Espremer. Ser espremida... Bão, sinceramente, nada de interessante ou que eu ache valer a pena ficar aqui registrado, tem me pipocado na mente. Mas sinto uma necessidade enorme de acá passar e me registrar. Fico a matutar sobre temas ou assuntos (no fim, não dão na mesma cousa?), e numa lixeira mental, vou descartando as idéias. Por vezes, quis ter algum tipo de gravador acoplado à massa cinzenta. Baboseira ou não, ficariam registrados. Não se perderiam entre os sulcos cerebrais. Num grande bolo, juntaria tudo e pá! Jogava ao ventilador. A vocês - ou até mesmo a mim somente - caberia a conclusão final. Conclusão? Hummmm... não. Idéia inicial. Já disse neste blog de meu deus que algumas palavras vem a mim como sentenças finais. Conclusão é fim de estrada. Não acredito em puff, acabou! A vida - parte dela ou tudo, isso aí não concluo - é um eterno processo até que a morte os separe. Vai e vem... vem e vai... é a mesma coisa de antes, só que com alguns adereços a mais... e vai e vem... vem e vai...

Uél. Retornei hoje ao trabalho. O que isso interessa? A mim, muito. Volta tudo como dantes. A rotina, realmente, tem efeito maléfico sobre a minha pessoa. O mesmo caminho. O mesmo horário. As mesmas pessoas. E, o pior, os mesmos assuntos. Até de mim eu enjôo. Parecem-me ser sempre as mesmas questões. Os mesmos problemas. As mesmas dúvidas. Já tô meio de saco cheio disso. Preciso me futucar. Encarar novidades. Ou fazê-las. Ok, talvez deveria eu concentrar esforços para resolver os perrengues atuais. Porém, eles já são tão conhecidos por mim que nem me provoca mais forças para resolvê-los. Não sei se isso é bom no fundo. Estou aprendendo a conviver com eles. Vestidos de fantasmas, vêm me assombrar quando estou pegando no sono, visualizando seres surreais com os olhos fechados (estou pegando no sono quando imagens insólitas aparecem). Empurro-os para o lado e continuo a me entregar a Morfeus. Se eu os enfrentasse, outros apareceriam. Novos. Devo me apegar aos antigos, enjoando-me as entranhas, contudo conhecidos e não mais temidos? Ou deve liquidá-los, jogando-me num outro poço, perdendo o sono, procurando saber como proceder ao embate? Confortable numb ou jogo-me na tempestade?

terça-feira, 7 de julho de 2009

Aguias

Vem cá! A palavra desavermelhar ecziste? Soltei essa ontem, no melhor estilo mineirês, e a minha ouvinte achou graça do meu manejo da língua pátria. Fiquei encafifada. Falei errado eu? Essa minha mania de inventar palavras aliada a minha característica de ter o pensamento mais rápido que a fala deixam-me em maus lençóis. Trupico ao soltar as palavras ao vento. Sim, trupico. Não tropeço, trupico mesmo.
Ontem, enquanto as aguias estavam espetadas no meu pobre pé torcido (aguuuuuias, não águias), em um dos poucos momentos relax da minha pacata vida terrestre, veio-me uma constatação. Eureka! Sente aí. Veja se não estou certa. Tá... tá... pode haver uma ou outra contestação ao meu momento filosófico brilhante. Se, por acaso, algum outro notório já havia sacado a grande sacada, por favor, deixe-me ignorante a esse fato. Permita-me iludir a mim mesma ter sido moá fantástica ao chegar a tal ponto, fazendo-me acreditar no potencial desta pessoa que vos digita. Vai uma chávena de café? Vamos lá!
Passado. Passado não existe mais. Até aí, tudo óbvio, não? Futuro. Futuro não existe ainda. Pare! Não existe mais... não existe ainda... Pegou? Não existem!!! Não me importam o mais e o ainda, mas o produto da intersecção dos dois tempos: não existem. E por que cargas d'águas me encasqueto (eu e muitos outros) com eles? Por que me tiram horas preciosas de sono? Por que me criam cá dentro do peito uma ansiedade angustiante? É como se eu tivesse medo de olhar debaixo da cama, no meio da madrugada, e me deparar, fuça-a-fuça, com um jacaré. Que eu deixe a vida me sugar um dia de cada vez, na melhor política dos grupos anônimos por aí. Um dia de cada vez... Só por hoje... Isso! Só por hoje, não vou matutar sobre o passado tampouco sobre o futuro. Farei o melhor, talvez o pior também, a cada 24 horas que me são apresentadas. E assim, meu futuro vai se revelando a mim aos poucos como uma moça, em busca de alguns grandes trocados, na boate Queens. Primeiro, as luvas. Uma rebolada. As meias. Mais uma rebolada. O primeiro colchete do "seu tião". Tchá... tchará... tcharááá... Após mais algumas encenações, pimba! Os dias nus e crus reservados a mim, mostram-se por inteiro.
Viva eu o presente!
Outra matutação e aqui faço explícito o meu equívoco. Não, não. Não é, a grande maioria, vazia como enxergava eu. Grande parte das pessoas são cheias. Repletas de afazeres, diversões e pensamentos que as fazem esquecerem de si mesmas. Vazia sou eu. O que me obriga a lutar, dia-a-dia, no ringue, comigo própria.
Soc! Tóin! Crash! Powwwww!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bailan sin Cesar

E eu estava a matutar sobre a liberdade. Esta que nos foi imposta como castigo, vestida com o nome de "livre arbítrio". Dois caminhos: optando por um, a recompensa; por outro, um preço a ser pago. Ruminando mais um pouco, não somos tão livres assim. Podemos até nos enganar, chegando-se à conclusão que, sim, há liberdade sim. Sou livre porque faço escolhas - sejam elas boas ou ruins. Eis o meu vento nos cabelos a todo o vapor. Não sou conseqüência daquilo que me foi imposto externamente, mas daquilo que me impus conscientemente. E arco com os resultados positivos e/ou negativos. Reflexo daquilo que eu gostaria que fosse. Ou acho que assim o é, como mecanismo de autodefesa. De alguma forma, preciso lutar contra o mundo ao qual estou circunscrita e uma das minhas táticas de guerrilha é ver-me singular. Única. Apoiada na minha suposta liberdade.
Blá... blá... blá... Não sou livre droga nenhuma. Qual a porcentagem para se entender libertae dona absoluta do meu nariz? Se eu disser que sou uns 80%, sou livre? Tal qualidade só se aplica a 100%? Conceitos absolutos não entram em minha cabeça sem uma refutação qualquer. Para mim, absoluto não existe. Nem o sim, nem o não. Sou do partido do talvez, dando-me asas a reflexões maiores e nunca encaixando uma situação numa dicotomia rígida.
A janela me mostra um rebuliço a metros de distância. Escuto Dona Adelaide esclarecer de que se trata de um defunto. Ela o viu quando descia pro trabalho. Parecia ser morador de rua. Corpo coberto por um lençol branco, apenas os pés calçados e parte do cabelo ficaram à mostra (indaguei-me sobre quais indícios evidentes, a moça da copa concluiu tratar de algum mendigo). Entre um gole de café e uma tragada, tento imaginar o que houve com o moço. Assassinato? Mal-estar súbito e fatal? Auto-extermínio? A visão não me oferece mais dados sobre o acontecido. Tampouco carrego comigo um binóculo. Vivos ou mortos, as histórias pessoais me interessam. Não que eu tenha xeretice aguda. Melhor, quiçá eu a tenha mesmo. Interesso-me pela sorte humana e o que se faz para esquecer o único propósito da existência: passar, num desconta senão fede, a carga genética herdada involuntariamente. Tornar-se imortal, assim como os pais, avós, bisavós e por aí vai, até onde for possível. Pronto! Fui jogada para este mundo de cá. E agora, José? Que faço eu? Corro... corro... corro... trepo... engravido... dou a luz... Participação cumprida. E agora? Corro... corro... corro... procuro saber se há mais alguma coisa a ser feita. Aliás, preciso saber. Como ficar acá sem nenhum propósito maior? Correr me faz esquecer da falta de razão.
Deixo o morto em paz. Vou ao banheiro. "- Adelaide, donde está o papel higiênico?". Livro-me da dor insistente que me acompanhou desde minha casa até o trabalho. Lavo as minhas mãos com aquele sabonete horrível fornecido pela empresa que aqui presta serviços. A pele sai ressecada, suplicando que a unte o mais rápido possível. Olho-me no espelho. A luz interfere na maneira como meus olhos captam sua dona. No gabinete higiênico mais próximo a minha sala, a claridade faz-me admirar alguns pontos. A boca, os olhos, o nariz... ainda têm lá a sua graça, mesmo não multiplicando as células, o organismo, como fizera há 10 ou mais anos atrás. Lá no outro, pelo qual escolhi por ser mais longe de todos, dando-me um pouco mais de liberdade a um momento íntimo e animal - as necessidade é que me ligam à natureza e toda a sua influência sobre mim - o ambiente é um pouco mais escuro. Vejo-me de outra forma. Como se, agora, defeitos ficam muito mais evidentes. A visão não agrada meu ego, mas futuca minha massa cinzenta.
É errado pensar que sou uma pessoa vaidosa. Nunca fui. As vezes nas quais fui impelida a fazer algo em relação a minha aparência foram nada mais que uma resposta ao meio. Não posso negar que sou, também, resultado dessas interações eu-outros-mundo. Por mais que se diga estar cagando e andando pra tudo e pra todos, de alguma forma somos atingidos pela realidade projetada por cada um. Sempre achei ser a inteligência, a pena colorida da indumentária. Como só isso não basta, acabo por me preocupar com outros lados não tão importantes assim, mas que contam quando se trata de satisfazer outras necessidade humanas.
80%. Calcularia por volta deste número. Absoluta ou relativa, a liberdade? Dançar conforme a música? Ou eu é que escolho se danço ou não? Passar o creme nas mãos porque o clima me impõe... ajustar-me fisicamente porque a necessidade de procriar - não necessariamente, mas a vontade nasce daí - me impõe... deparar-me com um morto, porque o ato de outra pessoa me impõe...
Teoria dos jogos. Decisões alheias afetam as minhas. Ou forçam as minhas. Mesmo que eu não as queira.