O nome dele era Roque. De Rock Balboa mesmo, o famoso lutador cinematográfico. Talvez uma referência inconsciente à cena na qual o personagem, treinando para uma grande luta, sai atrás de galinha-galinha-mesmo. Já o seu harém era composto por Cacilda, Carmélia, Carolina, Conchita, Cacilda e mais umas duas, com nomes também começados com a letra C. Eu os batizava. Vez ou outra, havia palpite alheio, quando minha lembrança (Cláudia, nunca me lembrei de Cláudia) não fazia surgir a inspiração. Criados com muito amor e carinho desde a mais tenra idade. Conversava (Conchita era a predileta). Por vezes, fazia experiência macabra, dando um resto de strogonoff para comerem. Nunca fui 100% sã. Assim era o meu galinheiro. Meus bichinhos de estimação. Corrompida por este sistema que passa por cima dos sentimentos mais nobres, vendi-os ao vizinho da frente. A história pára por aí. Não quero pensar que fim levou Roque e suas fêmeas. Minha culpa. Minha máxima culpa. Deveria pesar...
Roque era um galinho vistoso. Peito estufado. Belo canto (gosto de ouvir galo cantar). Porém, algo mudou para ele quando adquiriu mais idade. De repente, não mais reconheci aquele bichinho meigo que vi crescer. Passando uma galinha a sua frente, ele andava atrás, arrastando a asa, montava duma vez só na cacunda da pobrezinha, dando bicadas em sua cabeça para que ficasse quieta. Uma revolta crescia dentro do meu peito de 12-para-13 anos. Como pôde fazer ele isso com a Conchita? E ela saía disso como se nada houvesse acontecido?
Interessante é o instinto, não? Ele tá aqui, quietinho, e quando surge a oportunidade, ele aparece com toda a sua força, sobrepondo-se à razão. Acho isso de uma beleza ímpar. Aproxima-nos daquilo que somos essencialmente e que a razão fez embaralhar as idéias. Tornou-se condenável qualquer traço que nos aproxime da condição animal. Outra palavra forte. Anoto: carne. língua, animal. A lista vai aumentando.
Eu reconheço alguns traços instintivos em mim e não me obrigo a reprimi-los. Que venham à tona com toda a sua força, mostrando-me haver saída à racionalidade angustiante... opressora... Ajo com total liberdade, sem que voz interna alguma que condene ou coordene. Entrego-me àquilo liberto pelo toque sem culpa alguma.
Algumas vezes disse ou concordei com elas, palavras pontes para a consciência, quando o mais desejoso no momento era justamente correr dela, entregando todos os sentidos à fala animal. Palavras sujas não fazem com que meu corpo reaja mais vorazmente à fome. A visão do nu. O gosto salgado do suor. O cheiro da pele. Mãos que exploram e apertam o outro, num desejo impossível à física de dois corpos ocuparem o mesmo espaço... ou se debatem... Os ouvidos que captam os ruídos, os suspiros, os gemidos. Nada semelhante às expressões racionalmente pensadas e avaliadas sobre a oportunidade em dizê-las. Um "sou sua puta" quebra todas as sensações próprias da natureza, lembrando que há uma sociedade, que há relações conscientes nela, que há obrigação em se ter prazer e, infelizmente, há um manual para isso. Não quero sussurros planejadamente ordinários. Quero atos involuntariamente sujos, dignamente humanos. Dor.
À época, mal sabia eu, Roque dava de 10 a 0 em Novas, Cláudias e afins. Instinto.
Bique-me.
De todos os textos que vc escreveu que eu já li, esse se tornou, instantaneamente, meu predileto.
ResponderExcluirGosto da Maura decididamente sem-vergonha. Gosto da Maura que não tem medo do seu lado mais profundo, se me permite a piadinha inevitável.
Gosto da Maura que afasta a neurose da obrigatoriedade de ser "certo" com a liberdade e conforto em ser o q se é, com todas as delícias e culpas.
De molhar a calcinha, se me permite a crítica! =D
É... algo de estranho havia naquela coca-cola...